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domingo, setembro 27, 2015

As sombras têm exaustiva vida própria...


Addiragram
 FAZ-SE LUZ

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e na boca


Mário Cesariny, in "Pena Capital"

quinta-feira, setembro 24, 2015

Não é por respirar que estamos vivos, mas é por não amar que estamos mortos...

Addiragram
Amar é arriscar. Tudo.

O amor é algo extraordinário e muito raro. Ao contrário do que se pensa não é universal, não está ao alcance de todos, muito poucos o mantêm aqui. Chama-se amor a muita coisa, desde todos os seus fingimentos até ao seu contrário: o egoísmo.

A banalidade do gosto de ti porque gostas de mim é uma aberração intelectual e um sentimento mesquinho. Negócio estranho de contabilidade organizada. Amar na verdade, amar, é algo que poucos aguentam, prefere-se mudar o conceito de amor a trocar as voltas à vida quando esta parece tão confortável.

Amar é dar a vida a um outro. A sua. A única. Arriscar tudo. Tudo. A magnífica beleza do amor reside na total ausência de planos de contingência. Quando se ama, entrega-se a vida toda, ali, desprotegido, correndo o tremendo risco de ficar completamente só, assumindo-o com coragem e dando um passo adiante. Por isso a morte pode tão pouco diante do amor. Quase nada. Ama-se por cima da morte, porquanto o fim não é o momento em que as coisas se separam, mas o ponto em que acabam.

Não é por respirar que estamos vivos, mas é por não amar que estamos mortos.

De pouco vale viver uma vida inteira se não sentirmos que o mais valioso que temos, o que somos, não é para nós, serve precisamente para oferecermos. Sim, sem porquê nem para quê. Sim, de mãos abertas. Sim... porque, ainda além de tudo o que aqui existe, há um mundo onde vivem para sempre todos os que ousaram amar...


José Luís Nunes Martins in "Filosofias-79 reflexões"


sábado, setembro 19, 2015

O amor é esse contacto sem tempo...

 

 

Addiragram

Definição

Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os própri
os
passos encontram a direcção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço,
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos da treva.

Nuno Júdice, in "Um Canto na Espessura do Tempo"


quarta-feira, setembro 16, 2015

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado..

Addiragram

A Noite Abre Meus Olhos

 

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só

José Tolentino Mendonça, in 'A Estrada Branca'

terça-feira, setembro 15, 2015

domingo, setembro 13, 2015

A Vida é Bela? - um post para este domingo



O Sonho (rêverie) é quantas vezes usado como forma de sobrevivência a uma dor impensável. Se pode sê-lo, é também um modo de alienação quando impede o contacto com a Realidade dolorosa, mas para a qual se torna urgente acordar. 
As situações extremas exemplificam radicalmente aquilo que o nosso dia  a dia permanentemente nos faz tropeçar. Nem todas as pessoas são predominantemente boas e honestas... Há-as capazes de provocar  sofrimento do outro, virando depois  as costas para não se sentirem incomodadas...
Tendo em mãos o livro de David Grossman : Ver: Amor, deixo-vos esta passagem que tão bem nos fala das duas faces da mesma moeda.

" À noite na cama, Momik fica acordado a pensar. O país de Lá devia ser muito bonito, cheio de florestas e carris de ferro pequeninos e reluzentes, lindas paisagens coloridas, paradas militares e um imperador valente, um caçador real, e um Kloiz, a feira de gado, e animais transparentes a cintilarem nas montanhas como passas num bolo. O problema é que sobre esse país paira um feitiço. E é aqui que as coisas se complicam. Uma espécie de maldição que caiu sobre as crianças, os adultos e os animais transformando-os em gelo. Deve ter sido a Besta nazi que fez isso.Passou pelo país e o seu bafo congelou tudo, como na história da Rainha das Neves. Deitado na cama, Momik inventa histórias, enquanto a mãe costura na entrada. A perna dela sobe e desce. Schimek ajustou-lhe o pedal de maneira a ela poder chegar lá com o pé. Desde então, no país de Lá, estão todos cobertos por uma película de vidro muito fina que os impede de se mexerem, e não se lhes pode tocar, é como se estivessem vivos sem estarem, e há uma única pessoa no mundo capaz de os salvar, que é Momik".

Grossman, David. VER:AMOR. D.Quixote.


sexta-feira, setembro 04, 2015

Relembrando o já publicado...( pelo momento de drama e dor...e insensibilidade absolutas)





     (Escher)
XV Uma civilização de compartimentos estanques
(...)
Oscar Wilde escreveu em qualquer parte que o pior crime é a falta de imaginação: o ser humano não se compadece com os males que não experimenta directamente ou a que não assiste. Pensei muitas vezes que as carruagens blindadas e os muros bem construídos dos campos de concentração asseguraram a extensão e a duração dos crimes contra a humanidade, que teriam acabado bem mais cedo se tivessem sido efectuados ao ar livre e à vista de todos. O hábito, nas praças públicas da Idade Média e do Grande Século, entorpecia talvez certos espectadores; mas sempre restavam alguns para se comoverem, ou até para protestar, e o seu murmúrio acabou por ser ouvido. Os executantes de tais obras hoje em dia são mais cuidadosos nas suas precauções.(...)
(Marguerite Yourcenar-1972-O Tempo esse grande escultor)

quinta-feira, setembro 03, 2015

Esclarecimento




O Aguarelas" iniciou um lento processo de reparação, desconhecendo o tempo que irá demorar. Neste primeiro tempo gostaria de repor todas aquelas imagens que desapareceram um dia...Julgo ser capaz de as reaver. Aquelas que me tiverem fugido definitivamente serão substituídas por outras. 
É como se procurasse costurar pedaços perdidos, procurando recompor  a unidade deste já longo " lençol".
Na minha infância,certos tecidos mais delicados quando sofriam quaisquer danos acidentais ou provocados eram objecto do trabalho  minucioso da cerzideira que unia o que se tinha rasgado.
Esse é, de momento, o que desejo ser capaz de fazer, até encontrar a maneira de continuar a dar voz ao " Aguarelas de Turner".

Um abraço.
Addiragram


terça-feira, setembro 01, 2015

" Aguarelas" em reparação...

(W. Turner) A Wreck, Possibly Related to ‘Longships Lighthouse, Land’s End’ c.1834