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domingo, janeiro 05, 2014

Que desejo vale o ensejo?




O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado! 

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão. 

A sprança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha sprança,
Rola mais que o meu desejo. 

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer. 

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou. 

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida! 

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido. 

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças,
Mas as mortas esperanças -
Mortas, porque hão-de morrer. 

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim. 
Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar. 

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, janeiro 01, 2014

A noite, o dia, cartas de um baralho...


(Hopper)

Sonetos de Shakespeare reescritos em português
 
Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas de um baralho
sempre trocadas neste jogo cego
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cêrco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite é noite mais fechada.

(Carlos de Oliveira)