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terça-feira, outubro 29, 2013

É dentro de ti que toda a música é ave..




               (Redon)
      
Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia? Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves

à terra da tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também

foi sobre as dunas a exaltação.
Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti 
que toda a música é ave.


(Eugénio de Andrade)


sexta-feira, outubro 25, 2013

Que importam pontes..



                                              
                                Que importam pontes 
                                imponderáveis
                                unindo sombras
                                galgando escarpas
                                compondo um todo
                                articulado
                                de ombros com ombros
                                braços com braços


                               se vem a noite
                               enregelar-nos
                               pôr-nos defronte
                               desta verdade
                               de nem as pontes
                               recuperarem
                               braços sem ombros
                               ombros sem braços

(David Mourão-Ferreira)


                         

quinta-feira, outubro 24, 2013

O Aguarelas era assim...há oito anos..

          (Cassat)



O Aguarelas de Turner era assim há oito anos. 


A recordação traz consigo sentimentos antagónicos que nos confrontam inevitavelmente com a perda. Há uma dor associada a um tempo que jamais voltará a ser percorrido. 
Resta o mel do encanto inicial com que começámos. "Malgrè tout" apeteceu-me percorrer os traços desse passado, através dos quais, fui fazendo conhecidos e amigos, com os quais fui partilhando ideias, afectos e diferentes saberes. 
Evoco aqui, com muita saudade, dois deles que entretanto, partiram: Amélia Pais e Torquato da Luz, que trouxeram a este canto tantos momentos de plena de generosidade.
Um dia destes virá em que o Aguarelas chegará ao seu termo. Não poderei  nunca deixar de estar grata a todos aqueles com quem me cruzei neste espaço virtual. 


segunda-feira, outubro 21, 2013

Presos ao apagar do mesmo pavio...



 Eléctrico
XLII

E se eu de súbito gritasse
nesta voz de lágrimas sem face!:

Eh! companheiros da plataforma
presos ao apagar do mesmo pavio!
Porque não nos amamos uns aos outros
e damos as mãos
- sim as nossas mãos
onde apodrecem aranhas de bafio?

Eh! companheiros da plataforma
(Não empurrem Irmãos.)

(José Gomes Ferreira)

sexta-feira, outubro 18, 2013

o grito que em tristeza cai lá fora...

                        (Edvard Munch)
           
                                                            O grito que se solta      
                                        espaço a espaço

                                       que se afunda
                                       mole e aderente

                                       que se adivinha
                                       curvo e apertado

                                       que é atmosfera
                                       inconsistente

                                       o grito que se insinua
                                       pela tarde

                                       se insinua mudo
                                       incoerente

                                       no vértice do mar
                                       no espelho em face

                                      na face que recorda
                                      e se pressente

                                     o grito que se sabe antigo
                                      imenso

                                      que ao sol se alastra
                                       levemente


                                       e levemente oscila
                                       e se contorna
                                       assim e devagar 
                                       serenamente

                                       serenamente finge
                                       e ignora

                                      serenamente nu

                                      serenamente

                                     o grito que em tristeza
                                     cai lá fora
                                     no espaço que da chuva se
                                    desprende.

(Maria Teresa Horta-Amor Habitado)  
                                                        
                                     
                                                              


                            

quinta-feira, outubro 17, 2013

Esse é que é o segredo..



Onde estão os meus Presentes?


Os melhores presentes são os inesperados. Têm de ser bons mas, graças à surpresa, podem não ser tão bons como os esperados.
Dizemos: "É só uma lembrança" e pensamos que estamos a ser hipócritas, porque não é possível esquecer a obrigação horrível de dar presentes. Achamos que dizer: É só uma lembrança" é a tradução exacta de "Desculpa lá, não tenho dinheiro para te comprar um presente melhor; contenta-te com isto, que já tens sorte; o que é que compraste para mim?"
No entanto, a lembrança é uma bela palavra. Não é souvenir ou recuerdo. Não significa só: "Não me esqueci de ti". A lembrança é o acto de lembrar, no sentido mais espontâneo, sem obrigação ou vontade.
A minha Mãe sabe dar presentes. Quando dá diz sempre: " Eu estava na loja tal, vi este não-sei-quê e lembrei-me logo de ti. Tive de comprar para te dar, claro".
Em inglês, o sentido é mais nítido: aquela coisa: remind me of you. Foi o próprio objecto que lhe fez um favor: trouxe-lhe à memória uma pessoa amada. A única maneira de retribuir essa amabilidade é comprando-o. E oferecendo-o à pessoa que faz lembrar. Não porque nos lembrámos dela mas porque trazíamos esquecida aquela pessoa e aquela coisa lembrou-nos quanto a amávamos- e o prazer que deu lembrarmo-nos dela.
(...)
Amar alguém é não poder passar sem ela. Como dependemos dessa pessoa e queremos que ela dependa de nós, oferecemos (ou não oferecemos) presentes que reforçam a dependência e desencorajam a autonomia. Quem ama oferece lembranças: objectos que revelam quanto se conhece e quantas coisas nos fazem lembrar a pessoa amada.
As bilionárias oferecem jóias aos toy boys e os bilionários oferecem iates às amantes porque são convertíveis em cash. Oferecem autonomia. Oferecem o poderes viver sem mim. Tão pouco mostra amor estar muito tempo a pensar no presente que se vai dar a uma pessoa, para que se adeque à sua personalidade. Esse trabalho podemos nós encomendar a outra pessoa.
(...)
Mas o amor não é assim que funciona. Amar é não poder abrir uma revista ou ler um livro ou dar um passeio sem se estar sempre a se interrompido por associações de coisas e experiências à pessoa amada: "Tenho de lhe contar, tenho de lhe dar, quero saber o que pensaria, que pena não poder ver..."
A verdade é que não são interrupções. Nós já estávamos a pensar nela. Mesmo que não à superfície. Esse é que é o segredo. Aquelas coisas apenas nos chama a atenção porque nos permitem trazer a pessoa amada à superfície, para a nossa frente.
Este serviço, escusado será dizer, nenhuma empresa consegue oferecer. Quando se trata de comprar presentes para as pessoas que amamos, nós temos essa vantagem gigantesca. É verdade que nos parece sempre pouco e que essa sensação de não ter conseguido  dar muito mais- tudo o que se queria dar- faz sofrer. E não é pouco.
Mas não sofre, senão de comoção, a pessoa que recebe o que lhe damos. Não é "só uma lembrança": É uma verdadeira lembrança. É só um dos muitos incidentes de associação. Uma das coisas que faz quem nos ama é ser capaz de enumerar e descrever ao pormenor todos os outros presentes em que se pensou, onde os viu, no que se pensou em cada altura, tudo.
"Era para te comprar...mas depois não sabia...e só havia aquele tamanho...e depois entrei na loja X e vi um não sei-quantos-lindo-de-morrer mas custava..."
Estas récitas que parecem uma sequência de compras frustradas são muito mais do que isso: são declarações de amor. Mostram como nos sentimos pequenos diante da pessoa amada, incapazes de igualá-la ou representá-la num simples presente.
(...)
Está certo que seja assim: os presentes, entre pessoas que se amam, não dependem do dinheiro que se gaste neles.Dependem do amor. E são sempre bem escolhidos porque foram dificeis de escolher, com a dificuldade que só custa a quem ama.
Já os outros presentes, que não tenham essa ajudinha, é outra questão. Nesses casos, o melhor presente é o dinheiro. Vivo. E quanto mais, melhor. Para nós gastarmos conforme nos apetecer. Sem chatices, vales e com trocas.
Há que ser frio- ou muito quentinho- nestas coisas.

(Miguel Esteves Cardoso -Como é linda a puta da vida)