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segunda-feira, novembro 26, 2012

Por amor talvez espreitasse de novo nas mangas do mundo....




As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.

Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,

talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que

ainda esperam por mim. Não sei se volto.

Maria do Rosário Pedreira -[in Poesia Reunida, Quetzal, 2012]

domingo, novembro 18, 2012

Um homem tão grande tem tudo o que quer...



Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras
rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.


Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.


Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.



Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.


Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.


Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.


Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.


Um homem tão grande
tem tudo o que quer.


O que ele não tinha
era um fecho éclair.


(António Gedeão)