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sábado, dezembro 31, 2011

Uma boa despedida...

 (Aguarelas de Turner)

2012 é para todos nós um ano especial. Se o vislumbramos com uma particular desesperança (realisticamente falando) ele, pode ser, para cada um de nós, um motor para que deixemos aquela atitude de moleza e alguma indiferença que tantas vezes nos tem caracterizado, e acordemos a capacidade de nos indignarmos com tudo o que é injusto e violento.
Um 2012 vivo e cheio de energia ...para todos os meus amigos.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

é o que por essa música encoberta acena em vão do outro lado dela....

                   (Aguarelas de Turner)

 Por Entre os Sons da Música

Por entre os sons da música, ao ouvido
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta

acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Luzes de Natal

As luzes estão apagadas na nossa cidade. Sinal de luto por tudo o que estamos e vamos ter de passar? Manifestação de obediência à ditadura do capital? Diria que nunca vi Lisboa assim, eu que sou uma lisboeta de gema. A perspectiva economicista infiltra-se em todas as áreas da nossa vida. As pessoas estão definitivamente esquecidas. Nenhum destes decisores "iluminados" questiona sequer o efeito da insensibilidade e da indiferença sobre o ser humano. Convertem-se em cifrões os dias de trabalho que estão a ser  arrancados, convertem-se em cifrões o aumento das taxas moderadoras, convertem-se em cifrões as luzes que se apagam...Muito enganados estão aqueles que julgam que através da força opressora atingem os seus desígnios. Apagar as luzes da Vida tem um preço muito alto e, até agora, a História mostra que ninguém as conseguiu efectivamente apagar.
Por isso, para todos os meus amigos, acendo aqui as luzes da "minha" Lisboa sem luz.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Só os olhos ainda são humanos...

                    (Júlio Pomar)
Canto Peninsular

Estar aqui dói-me. E eu estou aqui
Há novecentos anos. Não cresci nem mudei.
Apodreci.
Doem-me as próprias raízes que criei.

Foi a guerra e a paz. E veio o sol. Veio e passou
a tempestade.
Muita coisa mudou. Só não mudou
Este monstro que tem a minha idade.

E foi de novo a guerra e a paz. Muita coisa mudou
Em novecentos anos.
Eu é que não mudei. Nestre monstro que sou
Só os olhos ainda são humanos.

Quantas vezes gritei e não me ouviram
Quantas vezes morri e me deixaram
Nos campos de batalha onde depois floriram
Flores e pão que do meu sangue se criaram.

Andei de terra em terra
Por esse mundo que de certo modo descobri
E fui soldado contra a minha própria guerra
Eu que fui pelo mundo e nunca saí daqui.

Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.
Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome.
Eis-me tal como sou há novecentos anos
Eu que não sei escrever sequer o próprio nome.

Falam de mim e dizem: é um herói.
(Não sei se por estar morto ou porque ainda não morri)
Mas nunca ninguém disse a razão por que me dói
Estar aqui.

(Manuel Alegre- Praça da Canção)

Só os olhos ainda são humanos...

                    (Júlio Pomar)
Canto Peninsular

Estar aqui dói-me. E eu estou aqui
Há novecentos anos. Não cresci nem mudei.
Apodreci.
Doem-me as próprias raízes que criei.

Foi a guerra e a paz. E veio o sol. Veio e passou
a tempestade.
Muita coisa mudou. Só não mudou
Este monstro que tem a minha idade.

E foi de novo a guerra e a paz. Muita coisa mudou
Em novecentos anos.
Eu é que não mudei. Nestre monstro que sou
Só os olhos ainda são humanos.

Quantas vezes gritei e não me ouviram
Quantas vezes morri e me deixaram
Nos campos de batalha onde depois floriram
Flores e pão que do meu sangue se criaram.

Andei de terra em terra
Por esse mundo que de certo modo descobri
E fui soldado contra a minha própria guerra
Eu que fui pelo mundo e nunca saí daqui.

Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.
Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome.
Eis-me tal como sou há novecentos anos
Eu que não sei escrever sequer o próprio nome.

Falam de mim e dizem: é um herói.
(Não sei se por estar morto ou porque ainda não morri)
Mas nunca ninguém disse a razão por que me dói
Estar aqui.

(Manuel Alegre- Praça da Canção)

sábado, dezembro 10, 2011

Concurso de Natal 2011- Camelos do Presépio-VII


Foi com grande esforço que este meu camelo chegou a estas paragens. Queria mesmo desviar-se desta rota tão funesta...mas a perspectiva de poder receber alguma recompensa fê-lo ceder às tentações e desviar-se dos seus princípios éticos decidindo contribuir para engrossar as hostes dos mui bem pensantes que caminham já em direcção ao presépio. Veremos se a sorte o presenteia...
Atenda a tudo o que ele teve de passar: traz ainda sinais da areia do deserto, da chuva copiosa que o atormentou, bem como das noites longas e infinitas que lhe serviram de manto.

um abraço ao ilustre organizador-A Barbearia do Senhor  Luís-e a todos os que peregrinam nesta direcção......

Addiragram

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Uma ausência que entrava nela como uma claridade...



                    (Magritte)
E as rosas faziam-lhe falta. Haviam deixado um lugar claro dentro dela. Tira-se de uma mesa limpa um objecto pela marca mais limpa que ficou então se vê que ao redor havia poeira. As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela. No seu coração, aquela rosa, que ao menos poderia ter tirado para si sem prejudicar ninguém no mundo, faltava. Como uma falta maior.
Na verdade, como a falta. Uma ausência que entrava nela como uma claridade. E também ao redor da marca das rosas a poeira ia desaparecendo. O centro da fadiga se abria em círculo que se alargava.

(Clarice Lispector)

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Na vindima de cada sonho...

               

                           (Marc Chagall)
                     Confiança

               O que é bonito neste mundo, e anima
                É ver que na vindima 
                De cada sonho
                Fica a cepa a sonhar outra aventura...    
                E que a doçura
                Que se não prova
                Se transfigura
                Numa doçura
                muito mais pura
                E muito mais nova...

                       (Miguel Torga)

sábado, dezembro 03, 2011

A luz entrou pela janela..

          (Hammershoi)

A luz entrou pela janela,
Vinda do sol lá no alto,
E assim dentro do meu quartinho
Mergulharam os raios do Amor.

Nos feixes de luz eu vi claramente
O pó que tu raramente vês,
Do qual o inominável tira
Um nome para alguém como eu.


Vou tentar dizer um pouco mais:
O amor seguiu o seu caminho
Até chegar a uma porta aberta-
Então o próprio Amor desapareceu.


Agitadas na luz do sol
As partículas pairavam e dançavam,
E eu juntei-me a elas
Numa circunstância informe.


Depois regressei do lugar onde estivera
O meu quarto estava na mesma-
Mas já nada restava entre o inominável e o Nome


Vou tentar dizer um pouco mais:
O amor seguiu o seu caminho até chegar a uma porta aberta-
Então o Próprio Amor desapareceu.


(Leonard Cohen- Livro do Desejo)