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sexta-feira, julho 29, 2011

Navegar é preciso....pausaaaa

     (Aguarelas de Turner)

Em cada partida esperamos a renovação, a oportunidade de nada fazer, o sonho "em roda livre". Em cada regresso preparamos a nova partida...
Até qualquer dia a todos os amigos.

terça-feira, julho 26, 2011

De há séculos teu perfume nos proclama

           (Redon) 
Rosa, em teu trono, pra os da Antiguidade
eras um cálice com um bordo simples.
Mas para nós és a flor plena, inumerável,
o objecto inesgotável.


Pareces na opulência trajo sobre trajo
a envolver um corpo de nada mais que brilho;
mas cada pétala tua é a um tempo só
fuga e negação de toda a roupagem.


De há séculos teu perfume nos proclama
os seus nomes de maior doçura;
de súbito, paira no ara como uma glória.


No entanto, não o sabemos nomear, adivinhamos...
E para ele passa a lembrança
que pedimos às horas invocáveis.


Rainer Maria Rilke-Sonetos a Orfeu

sábado, julho 23, 2011

Why do I stand silent even I have a mouth....



I stand under a tree of hungry hands
No
I stand under NONE
I go to isolation
an empty and absolute isolation
Traverse the desert miles after miles
And last city
I left behind me a long time
Go to great doubt
go to a doubt
vanishes by bigger doubt.
Why do I stand silent
even I have a mouth
Why do I stand idle
even I have feet
Why don’t I look
even I have eyes
Why don’t I scream and I am caught in this misery
because I am made of stone.
There is something I cannot reach it
I do not know what is
I stretch out to it
Air air… air!
What are you looking for in the sky?
I’m looking for an image of star which doesn’t exist.
With my two own eyes
on the other side
I should reach/access the darkness.
But who could to see the difference
between darkness and green?
I will be travelling to Aredo
and I will ornament my broken jars
with an image of goat’s red-horn
I will be travelling to Aredo
and marry the Goldsmith’s dead daughter
in the evening
sitting on the threshold of the door
I hear the neighbour’s smile
The newly hatched flies
Around the glare oil’s lamp
Yes, now
Suddenly, I see the Chestnuts tree
In the darkness, contemplating white flowers:
We are dust.

Tor Ulven (1953–1995)

 Uma elementar homenagem a todos os que morreram ontem e morrem todos os dias vítimas da perversa violência dos extremismos que odeiam o diferente, buscando, delirantemente, sempre e apenas o igual a si. 

domingo, julho 17, 2011

A esperanca nasce. Mas como?

Comparando local a local-neolíticos e gregos na Sicília-depara-se-nos o facto de, antes de os Gregos chegarem, os homens viverem no terror da natureza rapace,dos seus excessos e da sua imprevisibilidade. Não era possível nenhuma evolução : o homem permanecia acocorado com medo, sob ameaça da extinção. Mas eis que acontece algo. A esperança nasce. Mas como? E por que razão? Ninguém no-lo sabe dizer, mas com os Gregos os homens começam a ver a natureza não como hostil e perigosa, mas sim como uma esposa e até musa- pois o seu cultivo tornou o lazer ( com todas as suas artes) possível. O que queremos dizer quando empregamos a palavra « mediterrânico» começa aí, começa no primeiro ponto vital em que Atenas entroniza a oliveira como sua rainha reinante e a lavoura grega solta o seu primeiro alento...
Estudiosos apressar-se-ão, neste tópico, com as suas advertências contra perigos de um quadro excessivamente simplificado- e na verdade a minha escolha do ponto crucial da consciência do homem é assaz arbitrária; é mais provável do que certa. Mas houve sem dúvida um tal ponto e a eleição da oliveira na Ática serve tão bem como qualquer outro. Claro que havia deuses e crenças de todas as espécies circulando ao mesmo tempo- tanto locais como importados, e é isso que torna os argumentos dos estudiosos ininvejavelmente cheios de contradições e suposições. No entanto há razões que justificam a escolha da oliveira, pois ela este misteriosamente ligada ao destino de todo o povo grego. A oliveira sagrada da Academia era um ramo de árvore primitiva da Acrópole, e em toda a Ática todas as oliveiras ditas da mesma proveniência eram chamadas moriai, ou árvores escolhidas. Propriedade de estado, a sua santidade religiosa ajudava a conservar uma grande fonte de riqueza nacional. Encontravam-se sob os cuidados directos do Areópago e eram inspeccionadas uma vez por mês. Quem arrancasse uma árvore dessas ficava sujeito a desterro e ao confisco total de todos os seus bens terrenos. Estavam sob a protecção de Zeus Morios, cujo santuário ficava perto de Atena. Um dos seus atributos era desfechar raios sobre a cabeça desses infractores.


(Lawrence Durrell-Carrocel Siciliano)

sábado, julho 16, 2011

Ou apenas o tesouro sem preço do teu tempo....

      (Pascal Courcelles)

Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serás ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horário,
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário. 



E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

(José Jorge Letria)

quarta-feira, julho 13, 2011

é força, mar, elemento, água, fogo, destruição, é atmosfera, respira-se...

   (Chagall)
(O Amor) É inevitável, faz parte da combustão da natureza, é força, mar, elemento, água, fogo, destruição, é atmosfera, respira-se, quando se morre abandona-se, o amor deixa, fica isolado, é um elemento, come-se, bebe-se, sustenta pão, pão diário para rico e pobre, pão que ilumina o forno do amassador, aparece nas condições mais estranhas, bicho que nasce, copula dentro de si mesmo, paira, espermatozóide e óvulo, as duas coisas ao mesmo tempo, amor é assim outro elemento fundamental da natureza, as pessoas vivem tanto com o amor, ou tão alheias do amor, que nem notam, raro percebem que o amor existe, raro percebem que respiram, que a água está, é indispensável, ninguém pode viver alheio aos elementos, ao amor.

Ruben A., in 'Silêncio para 4'

sábado, julho 09, 2011

Os loucos os fantasmas somos nós

    (W.Turner)
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.


Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos os fantasmas somos nós,


Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...


(Alexandre O' Neill- Poemas com endereço-1962)



sexta-feira, julho 08, 2011

Escutamos uma linguagem desconhecida, e, contudo...


               (Chagall)
Ao contrário, não existe um só elemento da poesia que seja copiado do exterior. Nenhuma das suas criações recorre a um instrumento, ou à mão do homem; olhos e ouvidos nada podem detectar, pois a audição pura e simples das palavras não consegue esgotar os efeitos dessa arte secreta. É uma arte toda interior; e se os demais artistas cumulam os nossos sentidos de impressões exteriores assaz agradáveis, o poeta, esse enriquece de ideias novas, feéricas e deleitosas o santuário íntimo da nossa alma. O poeta tem o dom de mobilizar, a seu belo prazer, as forças secretas que nos habitam, e revelar-nos, através da palavra, todo um mundo grandioso e desconhecido. Como que surgidos de profundas cavernas, perpassam-nos pelo espírito os séculos passados e os séculos vindouros, a humanidade inteira, os sítios mais maravilhosos e os mais extraordinários acontecimentos, tudo quanto é susceptível de nos arrancar à banalidade do presente. Escutamos uma linguagem desconhecida e, contudo, percebemos o que quer dizer. Verdadeiro poder mágico emana das palavras dos poetas; mesmo as palavras banais adquirem na sua boca, uma estranha sonoridade, conseguem cativar os que as escutam, com todo o enbriagador encanto.
- Com o que acabam de dizer, a minha curiosidade tornou-se uma ardente impaciência- disse Heinrich.- Suplico-vos que me conteis tudo o que souberdes àcerca dos trovadores que ouvistes. Sinto um desejo insaciável de saber tudo quanto se relacione com esses seres de eleição. Tive, de repente, a impressão de já ter ouvido falar deles, mas não sei quando, talvez nos tempos da infância: não consigo lembrar-me de nada, de nada, absolutamente. No entanto, o que me dizeis parece-me perfeitamente claro e familiar-já não falando no real prazer que me dão com as vossas belas descrições...

(Novalis- Heinrich d' Ofterdingen)

sábado, julho 02, 2011

Tintas de sangue as restituo aos ventos..



Palavras, atirei-as
Como quem joga pedras, lança flores.
Abriram fendas nas areias,
Suscitaram carícias e furores.


Sobre mim recaíram
Pesadas de multíplices sentidos.
Tenho os lábios que um dia as proferiram
E os dedos que as gravaram- já feridos.


Tintas de sangue as restituo aos ventos,
Prestidigitador que sou de sons, palavras.
Dá-lhes novos alentos,
Fogo sonoro que em mim lavras!

Errantes lá por solidões imensas,
Com asas no seu peso, à recaída
Me tragam, ágeis, densas,
A resposta final que me é devida.

(José Régio)