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quarta-feira, abril 27, 2011

Mas que dizia eu?

                           (Aguarelas de Turner)

Nestas notas aleatórias de viagem seguirei apenas o meu rumo interior, como quem usa as imagens-memória ao sabor do som dos dias. Trago-vos hoje o poema com que esbarrei em Vila do Conde quando saía de uma visita ao Museu sobre as rendas de bilros.
O deslumbramento que esta surpresa em mim provocou fez-me sentir, por instantes, que os lugares nos procuram para que nos possamos encontrar através deles.

segunda-feira, abril 25, 2011

25 de Abril

Fragmento do Homem
Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.(...)

Eugénio de Andrade, in 'Os Afluentes do Silêncio' 


Comemorar Abril não poderá ser nunca transformar esta data num fetiche que se evoca para, de imediato, se desdizer. Comemorar Abril será dizer, as vezes que forem precisas, que outro Abril acontecerá quando não mais se conseguir tolerar a dor e a injustiça.

domingo, abril 24, 2011

Rolou devagarinho...

                    (Aguarelas de Turner)
Sem que eu a esperasse,
Rolou aquela lágrima
No frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho...,
Até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
Na boca me cantou,
Breve como essa lágrima,
Esta breve elegia. 


(José Régio )

 Já há muito que não visitava o nosso Norte. Nada justifica permanecermos de costas viradas para lugares que tanto nos trazem. Conheci sítios que eram, até aqui, completamente novos para mim e revi outros que já se tinham desfocado na paisagem dos anos.
Através de algumas fotografias que fui fazendo irei trazer aqui algumas notas soltas desta pequena-grande estadia.
Começarei por evocar Régio, natural de Vila de Conde, e que aqui voltava sempre para olhar este mar que nos comove e nos fascina.

terça-feira, abril 19, 2011

Um instante de pausa...

   (Aguarelas de Turner)

Apesar dos tempos de penumbra que atravessamos é importante que sejamos capazes de continuar a respirar as coisas simples que nos rodeiam. 
Um abraço a todos os amigos certos nestas férias da Páscoa. 
Até breve!


quinta-feira, abril 14, 2011

Já não sei andar só pelos caminhos...

            (Ingres)
O amor é uma companhia
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a  sou forte como árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.


Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

(Alberto Caeiro)

domingo, abril 10, 2011

Vai batendo como a própria vida...

Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.


Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandato de captura ou de despejo?


É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.


E é a força sem fim de duas bocas,
de duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...


(Alexandre O' Neill)

sábado, abril 09, 2011

Tempo de mascarada e de mentira



 Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação 


Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça 


(Sophia de Melo Breyner) 

segunda-feira, abril 04, 2011

e nem sei o que digo....

   (Borisov)
Perto da minha dama e longe do meu querer,
tão cheio de desejo e medo ao mesmo tempo,
o coração me falha e nas palavras tremo
quanto a poder dizer o que quero dizer.


«Bela», disse eu, « de dor fazeis-me estremecer,
 e nem sei o que digo, e nem sei o que penso,
 perto da minha dama e longe do meu querer.


De todas as demais nem desejo saber,
numa só coloquei todo o bem a um tempo,
Libertar-me ousarei do terror em que tremo
para pedir enfim que me façais valer
perto da minha dama e longe do meu querer?»


(Alain Chartier. 1385-1433)

sábado, abril 02, 2011

O Direito à preguiça

Os filósofos antigos disputavam-se quanto à origem das ideias, mas estavam de acordo quando se tratava de odiar o trabalho.
« A natureza» afirma Platão, na sua utopia social, na sua República modelo, « a natureza não fez nem sapateiros nem ferreiros; tais ocupações degradam as pessoas que as exercem, vis mercenários, miseráveis sem nome que são excluídos, devido ao seu próprio estado, dos direitos políticos. Quanto aos negociantes habituados a mentir e enganar, só serão aceites como um mal necessário. (...)
Platão e Aristóteles, esses pensadores gigantes, a cujos calcanhares os nossos Cousin, Caro e Simon só conseguem chegar ponde-se em bicos dos pés, pretendiam que os cidadãos das suas repúblicas ideiais vivessem no maior lazer, porque acrescentava Xenofonte, o « trabalho tira o tempo todo e assim não temos tempo livre para a República e para os amigos». Segundo Plutarco, o grande título de Licurgo, o « mais sábio dos homens» admirado pela posteridade, era ter concedido aos cidadãos da República tempos livres, proibindo-os de qualquer ofício.
Mas -responderão os Bastiat, os Dupanloup, os Beaulieu e companhia da moral cristã e capitalista-esses pensadores, esses filósofos, preconizavam a escravatura. Muito bem, mas poderia ser de outra maneira, dadas as condições económicas e políticas do seu tempo?(....) Mas os moralistas e os economistas do capitalismo não preconizam, a escravatura moderna? E a quem é que a escravatura capitalista concede lazeres? Aos Rothchild, aos Schneider e ás senhoras Boucicaut, inúteis e nocivos escravos dos seus vícios e dos seus criados.
(...)

(Paul Lafargue- O Direito à Preguiça)