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quarta-feira, junho 30, 2010

Cada peixe tem a sua época...

PEIXES

A raia, para ser boa, deve ser comida de caldeirada de pitau (Mira), menos em Maio, porque «raia em Maio, tumba à porta», e a faneca com três fff-fresca, fria e frita. Cada peixe tem a sua época: « A solha, no tempo do milho, come-a com o teu amigo», a sardinha antes da desova e o próprio caranguejo só lá para Agosto é que, assado na casca, atinge a perfeição. Mas todo o peixe regala quando sai da rede para o lume: tem um sabor único a mar, e até a reluzente salvelha e o horrível cação, lavados e amanhados na maré, se tornam toleráveis. Quanto ao linguado, ao goraz, à corvina, à gordíssima sarda, à pescada e à saborosa sardinha, para não falar dos peixes hoje quase desaparecidos, do rodovalho, do peixe-rei, ignora-lhes o sabor e o delicado perfume quem os não trouxe do barco para casa, ainda a escorrer dentro do cabaz, sobre uma cama de algas e de limos. São tão esplêndidos assados, fritos, de caldeirada, com um fio de azeite ou preparados pelo próprio pescador sobre as brasas.
(Raúl Brandão- Os pescadores- Pequenas notas)

segunda-feira, junho 28, 2010

É um espectáculo extraordinário


              (Turner)
Se eu fosse pintor passava a minha vida a pintar o pôr do sol à beira-mar. Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espectáculo extraordinário.
Há-os em farfalhos, com largas pinceladas verdes. Há-os trágicos, quando as nuvens tomam todo o horizonte com ar de ameaça, e outros doirados e verdes, com o crescente fino da lua no alto e do lado oposto a montanha enegrecida e compacta. Tardes violetas, neste ar tão carregado de salitre que torna a boca pegajosa e amarga, e o mar violeta e doirado a molhar a areia e os alicerces dos velhos fortes abandonados...
Um poente desgrenhado, com nuvens negras lá no fundo, e uma luz sinistra. Ventania. Estratos monstruosos correm do norte. Sobre o mar fica um laivo esquecido que bóia nas águas-e não quer morrer...

(Raul Brandão- Os pescadores- Pequenas Notas)

sexta-feira, junho 25, 2010

Todas as cores uniste...

                                (Aguarelas de Turner)
                                
                             Da inocência  à confiança
                             da claridade à fidelidade
                             do sonho à consciência
                             da beleza à bondade
                             da poesia ao amor
                             do amor à verdade
                             da solidão à harmonia
                             da angústia à liberdade
                             todas as cores uniste
                             num arco-irís fraternal

(António Ramos Rosa- Não posso adiar o coração)

domingo, junho 20, 2010

ah se não fosse cedo de mais para a morte...

                              (Aguarelas de Turner)

AH SE NÃO FOSSE

Ah se não fosse o medo
e as nesgas da sorte
ah se não fosse cedo
de mais para a morte
ah se não fosse o muro
a limitar o espaço
ah se não fosse o futuro
amanhecer tão baço
ah se não fosse a idade
e a tensão alta
ah se não fosse a liberdade
fazer tanta falta
ah se não fosse o mundo
estás a ver
ah se não fosse tudo
e o mais que vier.

(Espelho Íntimo- Torquato da Luz)

Parto por uns dias, poucos...Deixo-vos este belo poema de um amigo deste canto, T.L.

sábado, junho 19, 2010

Imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas..

(....)
Costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas. Fosse como fosse, eram horas de ir para a cama, os lençóis e as mantas dela as roupas que tinham vestidas, o importante era que não lhes chovesse em cima, e isso tinha-o conseguido o comandante indo de casa em casa a pedir que dessem abrigo, por esta noite, a dois ou três dos seus homens, que por ali tinham andado, atraídos pela novidade do elefante, do qual, por medo, não conseguiriam aproximar-se a menos de vinte passos. Enrolando com a tromba uma porção de forragem que bastaria para satisfazer o primeiro apetite de um esquadrão de vacas, salomão, apesar da sua vista curta, lançou-lhes um olhar severo, dando claramente a entender que não era um animal de concurso, mas sim um trabalhador honrado a quem certos infortúnios, que seria demasiado longo relatar aqui, haviam deixado sem trabalho e, por assim dizer, entregue à caridade pública. Ao princípio, um dos homens da aldeia, por bravata, ainda deu uns quantos passos para além da linha invisível que logo iria tornar-se em fronteira cerrada, mas salomão despachou-lhe um coice de aviso que, embora não atingindo o alvo, deu lugar a um interessante debate entre eles sobre famílias ou clãs de animais. Mulas, mulos, burros, burras, cavalos, éguas, são quadrúpedes que, como toda a gente sabe, e alguns por dolorosa experiência, dão coices, o que bem se compreende, uma vez que não dispõem de outras armas, quer ofensivas quer defensivas, mas um elefante, com aquela tromba e aqueles dentes, com aquelas patorras enormes que lembram martelos-pilões, ainda por cima, como se fosse pouco o que tem, é capaz de escoicear. Sugere a mansidão em figura quando se olha para ele, porém, caso seja necessário, poderá tornar-se uma fera. De estranhar é que, pertencendo à família dos animais acima mencionados, isto é à família dos animais que dão coices, não leve ferraduras. Afinal, disse um dos camponeses, um elefante não tem muito que ver, dá-se-lhe uma volta e já está. Os outros concordaram. Dá-se-lhe uma volta e fica tudo visto.(...)

(José Saramago- A Viagem do Elefante)

Deixemos Saramago na memória dos nossos filhos e dos nossos netos

quinta-feira, junho 17, 2010

Deixei o anzol em casa...

As Férias                                (Aguarelas de Turner)

Deixei o anzol em casa
e a isca, nem tive tempo de pensar,
mas o dia tem uma brandura de asa
- vou pescar.

Pesca sem azol nem isca.
Ter férias, tem, quem sente
a vida que mordisca
a linha negligente.

Ao pescador que se deixe
a tarefa de pescar.
Ter férias é deixar o peixe
ter suas férias no mar.

Hoje, a suavidade
da areia e do sol.
Amanhã, a cidade

(Sidónio Muralha)
E o anzol.


Para todos os que esperam ardentemente as férias e, para mim, que este ano, quase não as terei...

segunda-feira, junho 14, 2010

A cor das flores não é a mesma...

XXIX

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
Do que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor de sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente  sobre os mesmos pés-
O mesmo de sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

(Alberto Caeiro- O Guardador de Rebanhos)

domingo, junho 13, 2010

sábado, junho 12, 2010

quarta-feira, junho 09, 2010

« Que suis-je pour elle?»

                               (Monet) 
 (...)
 A mamã suspirou e ficou pensativa. O papá calou-se. Durante a conversa deles, eu sentia-me muito desconfortável.
 Depois do almoço fui para o jardim mas não levei a espingarda. Jurei a mim mesmo que não me aproximaria do « jardim Zassékin», mas uma força irresistível atraía-me para lá- e não era em vão. Mal me aproximei da cerca, vi Zinaída. Dessa vez estava sozinha. Com um livro na mão, andava devagar pela vereda. Não me viu.
Estive quase a deixá-la ir embora, mas caí em mim e tossiquei.
Virou a cabeça mas não parou, sacudiu da cara a larga fita azul-clara que lhe pendia do chapéu de palha redondo, olhou para mim, sorriu ao de leve e mergulhou de novo na leitura.
Tirei o boné e, depois de uns instantes de hesitação, dei meia volta e fui-me embora com a amargura no coração. « Que suis-je pour elle?»,pensei em francês, só Deus sabe porquê.
Nas minhas costas soaram passos familiares; olhei e vi o meu pai a aproximar-se com o seu andar rápido e suave.
- Aquela é que é a jovem princesa?-perguntou-me.
-É.
-Conhece-la?
Vi-a hoje de manhã, em casa delas.
O meu pai parou e, girando bruscamente nos tacões, voltou para trás. Quando chegou perto de Zinaída fez-lhe uma vénia educada. Ela retribui-lhe o cumprimento também com uma vénia e, com um certo espanto, baixou a mão com um livro. Vi como ela o seguia com o olhar. O meu pai vestia-se sempre com muita elegância, de maneira original e simples; mas nunca a sua figura me pareceu tão esbelta como dessa vez, nem o bonito chapéu cinzento lhe ficou tão bem a cobrir-lhe os caracóis quase tão fartos como na juventude.
Dei alguns passos até Zinaída, mas ela nem sequer olhou para mim; ergueu o livro e afastou-se.

(Ivan Turguénev- O Primeiro Amor)

Li da estante do meu pai " O Primeiro Amor" de Ivan Turguénev em anos de adolescência.
Que me terá ficado dessa leitura? Eis o que estou a tentar descobrir, depois de ter sido redespertada para esta obra por via de um blog de primeira qualidade que, desde o princípio, tem tido  o condão de me surpreender, de me maravilhar, e também, de me levar a discordar. Um blog que exerce um "efeito pensante", tendo a imensa qualidade de nunca me deixar indiferente. Um grande obrigada aqui a "Ponteiros Parados"!

segunda-feira, junho 07, 2010

Convicção e dúvida...

                                                (Aguarelas de Turner)
                                                 
" Convicção e dúvida, erro e verdade:
  são palavras, como bolhas de ar;
  brilhantes, ou baças: vazias,
  como a existência dos homens. "

 ( Omar Tchayyan - poeta persa-sec XI )

domingo, junho 06, 2010

sexta-feira, junho 04, 2010

O que vem a seguir não tem nome

Nas igrejas, ao menos aqui em Angola, é comum as pessoas dirigirem-se em voz alta às imagens de Cristo, da Virgem Maria, de qualquer santo, rogando, implorando, ou mesmo censurando-Os. Ninguém acha isso estranho. As imagens estão lá, afinal de contas como uma espécie de telefone público para o além. Um telefone público só com bocal, sem auricular. As pessoas podem interrogar as imagens, mas não têm direito a escutar as respostas. Quem se dirige a Deus é devoto; quem afirma ouvir a voz de Deus é maluco. Eu não sou nem devota nem maluca. Falo contigo para fingir que estou a falar comigo.
O vazio, tu sabes. O vazio e



O que vem a seguir não tem nome.

(José Eduardo Agualusa- Barroco tropical -cap. II- Segunda conversa com Santa Cecília)

Será tudo o que nos resta?

                                           (Magritte- o vestido de noite)

NO Reino do Pacheco
 (colaboração para um almanaque)

Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Querer viver ( deixai-nos rir!)
seria muito exigir...
Vida mental? Com certeza!
Vida por detrás da testa
será tudo o que nos resta?
Uma ideia é uma ideia
- e até parece nossa!-
mas quem viu uma andorinha
a puxar uma carroça?

Se  à ideia não se der
o braço que ela pedir,
a ideia, por melhor
que ela seja ou queira ser,
não será mais que bolor,
pão abstracto ou mulher
sem amor!

Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Neste Reino de Pacheco
- do que era todo testa,
do que já nada dizia,
e só sorria, sorria,
do que nunca disse nada
a não ser prà galeria,
que também não o ouvia,
do que, por detrás da testa,
tinha a testa luzidia,
neste reino de Pacheco,
ó meus senhores que nos resta
senão ir aos maus costumes,
às redundâncias, bem-pensâncias,
com alfinetes e lumes,
fazer rebentar a besta,
pô-las de pernas prò ar?

Por isso, aqui, acolá
tudo pode acontecer,
que as ideias saem fora
da testa de cada qual
para que a vida não seja
só mentira, só mental...

(Alexandre O' Neill)

quarta-feira, junho 02, 2010