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quinta-feira, abril 29, 2010

Carta ao meu filho que faz hoje 18 anos...

    (Fotografia de Ana Guedes)

Carta ao meu filho que faz hoje 18 anos

Ainda envolta na nuvem da longa anestesia perguntei à voz que no meu canto superior esquerdo balbuciava algumas palavras que logo me pareceram"impossíveis".
-ele é bonito?
Sossegaram-me com sorrisos afirmativos  de circunstância, mas, de imediato descobri como iria ser longa a espera para nosso encontro.
Vi-te em fotografia ainda nesse dia. O teu pai e a tua irmã apressaram-se a
mover céus e terras junto do fotógrafo para conseguir "trazer-te" na visita da tarde. Foi assim que te "vi" pela primeira vez, acompanhando os relatos detalhados de tudo o que se passava.Eras quase o bebé mais lindo que já alguma vez vira e os meus olhos mergulhavam dentro da fotografia na esperança de o tempo poder ser acelarado.
Ao 3º dia, depois daquela peripatética viagem em cadeira de rodas, lá nos pudemos finalmente tocar. Eu, muito a medo, já que aquela cabina complexa, fazia-me temer mexer em algum sítio vital. Uma festinha ao de leve, primeiro no braçinho, depois na cabeça, de novo no braçinho...para finalmente te tirarem da câmpanula para te colocarem no meu cólo. Saberia eu pegar-te, envolvido que estavas naquele emaranhado complexo? Se aquele primeiro instante nunca poderia corresponder ao sonho que longos meses me acompanhara, foi, todavia, inesquecível. A memória desses instantes gravou-se totalmente no meu corpo. Sabes, são aquelas memórias que nunca nos deixam e que se constituem como alicerces da nossa vida. Nunca deixes de as querer "recolher". Só nas experiências emocionais e com elas, conseguimos constituir a nossa "biblioteca para a vida", aquela que nos momentos conturbados faz as vezes dos carinhos dos nossos pais.Guarda-as sempre no teu cofre mais seguro.
Mas a nossa vez não tinha chegado ainda naquele dia. Deves ter dito de ti para ti: a minha mãe quase se parece como estes doutores, mal chega vai-se logo embora. Será que isto vai ser sempre assim?
Chegou finalmente o sábado. E foi tudo de repente. A enfermeira ,lesta e insensível, aproximou-se da cama e disse-me: se quiser ver o seu bebé vista-se e venha ao berçário! Acredita que não sabia! Fui numa atrapalhação, depois de percorrer um longo e difícil corredor. Chegada, olho-te no colo da enfermeira que te pegava. Foi um instante! Quando nos olhámos reconhecemo-nos como velhos conhecidos.Tudo a partir daí me pareceu mais fácil. Finalmente  podias descer  do ramo da árvore para a concha dos meus braços e encontrar enfim o teu lugar.
Façamos agora um salto de gigante no tempo. Hoje no teu metro e oitenta e muitos, lutas cada dia contra os teus obstáculos. Por vezes apetece-te dizer à maneira do Paul Nizan: Eu tenho 18 anos. Não consentirei que ninguém diga que é a idade mais bela da vida ...
  É que a descoberta de que a concha tecida à tua volta progressivamente tem de dar lugar às tuas próprias construções é uma descoberta inevitavelmente difícil.Pensa-se sempre que, sem rede, nunca se conseguirá largar. Quer-se construir o mundo com uma determinação ainda oscilante, que ora sonha "o caminho marítimo", ora espera que a vida venha desaguar na praia.      
 Todos sabemos que os actuais horizontes fazem, muitas vezes, temer o sucesso da viagem. Os escolhos são muitos e aos teus olhos eles podem ter a dimensão de uma montanha atribulada.Lembra-te contudo que os dois vencemos à partida a batalha mais importante- a batalha pela vida e pelo amor à vida.
Nada a partir daqui será verdadeiramente complicado, já que de então até cá, pudeste guardar já no teu cofre muitos e muitos momentos que te acompanham.  
Um grande beijo de Parabéns, querido filho.
   

terça-feira, abril 27, 2010

Notas Soltas de Viagem- Florença

                               (Aguarelas de Turner)

Florença faz a paixão de qualquer viajante. Aqui esquecem-se as multidões que se derramam por toda a cidade. É como se nos sentíssemos pertença de um grupo que persegue e ama todo aquele tesouro artístico que se nos oferece como uma dádiva. Como qualquer turista abeirei-me do Arno, "furei" para me apoiar no muro donde se contempla a ponte Vecchio. Deixei-me ficar, procurando imaginar aqueles tempos em que as lojas estavam nas mãos de ferreiros, talhantes e curtidores. A descoberta do Corridoío Vasariano, sobre as lojas, por onde caminhavam os Medici , longe do contacto com o povo, acordou-me da beleza para me lembrar a terrível constância da desigualdade e da descriminação ao longo dos séculos.

domingo, abril 25, 2010

O Abril com que sonhei...


Os sussurros que amarrávamos entre os dentes;
O sonho do que nunca iria acontecer;
A vontade, indomável, de partir;
A cor cinzenta que nos entranhava;
A música que ouvíamos em segredo;
O receio da palavra que escapara;
A guerra que era a glória dos cobardes;
O sonho que Verdade se tornou;
A possibilidade única de Ser.

(escrito há uns anos depois do desafio de http://www.osentidodaspalavras.blogspot.com/)


sábado, abril 24, 2010

Notas Soltas de Viagem- voltando a Roma...


                               (Aguarelas de Turner)
 
                                 (Aguarelas de Turner)
                                (Aguarelas de Turner)
A Fontana de Trevi, é, justificadamente, um "lugar de peregrinação" de todos os turistas que convergem para Roma. Quando lá cheguei questionei-me, de imediato, sobre a hora do dia a que seria possível chegar ali com umas parcas 50 ou 100 pessoas.... Talvez às primeiras horas da manhã, pensei...Mesmo assim, lá fui tentando penetrar as multidões que envolviam esta obra notável do Barroco, para tentar descobrir e captar alguns aspectos de pormenor. Deixo aqui uns pequenos detalhes...

quarta-feira, abril 21, 2010

Notas Soltas de Viagem- Assis

                             (Aguarelas de Turner)
                             (Aguarelas de Turner)
                                              (Aguarelas de Turner)
Voltar a Assis foi reencontrar com o mesmo prazer o que há uns anos me encantara. A localização num ponto alto, as ruas íngremes, a pedra, sempre a pedra maravilhosa, a perfeita conservação de um lugar, o medieval singelo, misterioso e fascinante, mesmo ali, ao pé de nós, e finalmente, S. Francisco e Giotto, lado a lado, fazem de Assis  um lugar em que apetece deixarmo-nos ficar. Até mesmo as enchentes de turistas, que parecem não fazer tréguas por toda a Itália, aqui, encontram-se em total harmonia com a "casa" que os recebe. Voltar a Assis é "urgente"!

terça-feira, abril 20, 2010

Notas Soltas de Viagem - Santa Maria Maior...ainda

                             (Aguarelas de Turner)

domingo, abril 18, 2010

Notas Soltas de Viagem- Basílica de Santa Maria Maior

                              (Aguarelas de Turner)

                                               (Aguarelas de Turner)

                                                    (Aguarelas de Turner)


             Visitar a Basílica de Santa Maria Maior  leva-nos a um "mergulho" ao  Século V  da nossa era (!!!). Precisamos de nos deixar ficar por ali, fazendo "navegar" o nosso olhar por todas aquelas paredes, aquele chão, aqueles tectos...  Encontramo-nos  face a uma "timeline"  de pintura e arquitectura  numa total harmonia.                                                 
                                     

quinta-feira, abril 15, 2010

Notas Soltas de Viagem - Forum Romano

                               (Aguarelas de Turner)

                              (Aguarelas de Turner)  

Percorrer o Forum Romano foi uma experiência única, porque, muito curiosamente o passado projectava-se no presente e todos aqueles lugares pareciam transbordar  de vida e "alma". Foi-me possível "sentir" a vida pulsante naquele espaço urbano.

quarta-feira, abril 14, 2010

Notas Soltas de Viagem - Coliseu (Roma)

                              (Aguarelas de Turner)

 O que cada um olha neste seu deambular pelo Coliseu? A prodigiosa arquitectura deste espaço? A recriação, no imaginário, dos momentos de dor e sofrimento que aqui ocorreram? O esplendor de um Império e a sua decadência? A transformação deste lugar num lugar outro, por obra do tempo?
Estas foram algumas das questões que, inevitavelmente, me vi a pôr ao reencontrar nesta manhã de chuva multidões pacientes percorrendo todos os corredores.
Cá por mim, procurei sobretudo a descoberta das formas que a minha máquina lá foi captando, sem deixar de me impressionar ( de novo) pelos aspectos desta  construção. Os "outros", não sendo apagados da memória, ficaram guardados num canto mais secreto.

segunda-feira, abril 12, 2010

Quando sinto a fugaz beleza de alguma hora...

   
                                       (Aguarelas de Turner) quarto de John Keats em Roma                      
Soneto
Quando fico a pensar poder deixar de ser
antes que a minha pena haja tudo traçado,
antes que em algum livro ainda possa colher
dos grãos que semeei o fruto sazonado;
quando vejo na noite os astros a brilhar
- vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! -
quando penso que nunca hei de poder traçar
sua imagem com arte e em sentido profundo;
quando sinto a fugaz beleza de alguma hora
que não verei jamais – como doce miragem –
turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora
um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem
do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada
até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada!

domingo, abril 11, 2010

Nunca saímos do mesmo lugar...

                            (Aguarelas de Turner)

Parti deixando atrás uma Lisboa teimosamente molhada,  que persistia em não querer abrir as portas à Primavera.  Não esperei que a partida me trouxesse o sol, como não esperei que a viagem me trouxesse, pelos novos lugares,  espaços internos reeditados. Vejo a viagem acima de tudo como uma ruptura no "tecido" diário que nos acontece. Ela é-nos precisa menos como um lugar de espanto do que como um lugar do deambular pelas  ruelas  e praças do nosso ser.
Desta vez Itália teve o condão de me levar a sentir muito mais grata por viver  e caminhar por estas paragens. Obrigada bela Itália pelo reencontro com a belíssima Lisboa!