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segunda-feira, março 29, 2010

Até qualquer dia


Estarei longe por uns tempos. Como esta Primavera nos aparece em dias intervalados, dando a impressão de  não querer fixar residência, deixo-vos este belo campo de girassóis que, mesmo à chuva
não deixam de colorir todo o campo.

domingo, março 28, 2010

Entrevista com Hannah Arendt- ou a Filosofia ao serviço da luta contra os totalitarismos

De Sábado para Domingo um filme- A Single Man -Tom Ford



Um grande filme sobre a dor do isolamento interior, da perda, do desespero, mas também da busca incessante de nos sentirmos vivos. 

Vejam-no se puderem! 

sábado, março 27, 2010

Frésias...

                                                      (Aguarelas de Turner)
           
Uma pátria tem algum sentido
quando é a boca
que nos beija a falar dela,
a trazer nas suas sílabas
o trigo, as cigarras,
a vibração
da alma ou do corpo ou do ar,
ou a luz que irrompe pela casa
com as frésias
e torna, amigo, o coração tão leve.

(Eugénio de Andrade)

quinta-feira, março 25, 2010

quarta-feira, março 24, 2010

Como o amor altera o sentido da chuva


Serenata à chuva

Chuva, manhã cinza, guarda-chuva.
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela
abraçados caminham sob o tecto
do guarda-chuva que os guarda.
Pelas ruas vão com a vontade de voltar
ao branco dos lençóis. Esse objecto prosaico
que às vezes se vira com o vento
torna-se objecto do poema. Dizer também
como a chuva é doce neste dia de verão.
Como o amor altera o sentido da chuva,
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam
ao vestido. No interior da pele o poema mudou
desde que entraste no guarda-chuva esquecido
a um canto do armário. Talvez o amor seja tudo amar
sem excepção. Eu que nunca uso guarda-chuva
assino incondicionalmente este poema.

(Rosa Alice Branco. Soletrar o Dia, 2002)

terça-feira, março 23, 2010

domingo, março 21, 2010

Podíamos saber um pouco mais ...



Princípios

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor. 



(Nuno Judíce)

sexta-feira, março 19, 2010

terça-feira, março 16, 2010

os meus olhos não dizem o que é bruma, o que é rio


Abraçada à noite,
a névoa desce sobre a terra.

Imprecisamente,
como se a névoa fosse dos meus olhos,
vejo o casario e as luzes da outra margem do rio.
Mais à direita, ao longe,
são já da névoa a praia, o mar.
ouve-se apenas o ronco do farol
- um som molhado.
Para o lado dos pinhais,
anda a bruma a fazer medo
e a pôr mais pressa nos passos de quem foge.

Não há luar, não há estrelas.
De novo, olho para o rio.
Não sei se o vejo:
anda a névoa, já, com ele,
e os meus olhos não dizem o que é bruma, o que é rio.
E ela não pára,
avança ao meu encontro.

Cerca-me.
E eu tenho, só,
orvalho nas árvores do jardim,
gotas de água que se partem na alameda,
o ar húmido que me trespassa,
o molhado ronco do farol,
os cabelos encharcados
e pensamentos de névoa...

(Alberto Serpa-Descrição, 1935)

segunda-feira, março 15, 2010

No poema ...

                                             (Zancan)  

No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto.

(Sophia de Mello Breyner Andresen-Mar Novo, 1958)

domingo, março 14, 2010

"Alice no País das Maravilhas"



Gostei muito de o ver esta tarde. Efeitos especiais verdadeiramente ao serviço de uma história. Uma daquelas histórias que nos acompanhará sempre!

quinta-feira, março 11, 2010

Os frutos caem de sua própria vontade...

                                       (Redon)
O Amigo                      
1.

Um amigo, o primeiro amigo
dentro da nuvem de um sonho.

O impossível toca-nos as mãos
subitamente — o fogo, a flor concêntrica
de planetas no exílio.

Na terra do silêncio
os frutos caem
de sua própria vontade.


2.
Ao coração das coisas,
ao jugo das cores da memória,
ao pequeno desvio da sombra no deserto,
ao amor que nos alimenta de morte, à morte
que morre connosco
opomos a infinita
constelação
dos nossos sentidos.

Casimiro de Brito, in "Jardins de Guerra"

quarta-feira, março 10, 2010

O resto, é a matéria....


Máquina do Mundo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

(António Gedeão-Máquina de fogo, 1961)

segunda-feira, março 08, 2010

domingo, março 07, 2010

é urgente descobrir rosas e rios...


 URGENTEMENTE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

(Eugénio de Andrade)

sábado, março 06, 2010

sexta-feira, março 05, 2010

O tempo tem mastins que erguem vozes....

Os Cães do Tempo                               (Fusilli)


O tempo tem mastins que erguem as vozes
hostis contra o rodar da carruagem,
o passo acomodando à abordagem,
por igual insolentes e ferozes.

Cerra ouvidos, podendo, por que gozes
dos solavancos a breve vantagem,
que muito cedo verás a viagem
tolhida de fracturas, anciloses.

E à tenaz, intrépida matilha
podes, querendo (ingénua armadilha),
lançar acaso um osso do farnel.

Deter-se-ão talvez; mas o antigo
olfacto lhes dirá que o inimigo
segue a bordo- e retomam o tropel.

A.M. Pires Cabral -(Os Cavalos da Noite, 1982)

quarta-feira, março 03, 2010

tira puxando coisas de mim, divertida..

                                               (Renoir)
                                         
O Futuro Perfeito

à minha neta Anica

A neta explora-me os dentes,
Penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
Meu rosto diverte-a, parda
Imagem dada à inocência.

Finjo que lhe como os dedos,
Fura-me os olhos cansados,
Íntima aos meus próprios medos
Deixa-mos sossegados.

E tira, tira puxando
Coisas de mim, divertida,
Assim me vai transformando
Em tempo da sua vida.

(Vitorino Nemésio)