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domingo, fevereiro 28, 2010

ó senhor doutor, tem de mo deixar ler...

uns dias mais tarde, não muito depois, joão esteves entrou na tabacaria e o senhor alves demorou-o um minuto mais. apenas um minuto. disse-lhe que aquele fernando pessoa que ali costumava ir escrevinhava uns poemas, de vez em quando, e que os pusera aos dois num texto, disse-mo mas não mo mostrou, comentou o homem. e depois acrescentou. eu até gostava de o ler, mas ainda não o convenci, não sei se anda a fazer aquelas revisões, que um poema ainda amadurece com cuidado. o próprio fernando pessoa perguntara ao senhor alves como se chamava aquele homem jovem de tez brilhante que ali entrara, e que já vira umas quantas vezes, sempre impecávelmente prometedor e com jeito de empreendimento. o dono respondeu-lhe que era o esteves, falava-lhe por esteves, que era de uma educação das boas e passava de manhã muito cedo rigorosamente à hora das pessoas que trabalham sem medos. o poeta fernando pessoa reconheceu o nome, sim, já sabia o nome e concordava com a ideia dos bons modos, e depois afundou-se brevemente nos pensamentos e despediu-se. quando voltou, poucos dias depois, não resistiu a comentar a escrita do poema com um prazer visível de quem descobrira um texto precioso. o dono da tabacaria disse três vezes, ó senhor doutor, tem de mo deixar ler, que até fico vaidoso de vir dentro de uma literatura. e depois o joão esteves perguntou-lhe, e sermos nós bichos com pernas, imagine como são as coisas, um escritor que entra aqui como outro qualquer e que até se inspira em nós, homem, somos fonte de inspiração. fernando pessoa, pensou joão esteves, um nome de escritor. e depois ponderou que o poema, coisa sobre o qual não percebia nada, havia de ser uma porcaria sem interesse. olhou em redor, viu a confusão em que se tornara a tabacaria, aquele desarrumo e o aspecto feio do dono, e viu como dali não se via nada de particularmente belo, como havia um poema de ser belo escrito a pensar naquilo.

(valter hugo mãe- a máquina de fazer espanhóis)

Para todos os "desafinados"-João Gilberto e Caetano veloso

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

O que não pode ser dito guarda um silêncio feito de primeiras palavras...

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiado tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

(Manuel António Pina- Cuidados intensivos, 1994)

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Há rios que são navegáveis...

                               (Turner)

Poema em Forma de Delta

Há rios
que são navegáveis
e navegam. É desses que eu gosto.

Jorge de Sousa Braga -(PLANO PARA SALVAR VENEZA,1981)

domingo, fevereiro 21, 2010

MADEIRA, AJUDAR E REFLECTIR

                                      (Aguarelas de Turner-Madeira 2003)

                                         (Aguarelas de Turner-Curral das Freiras-2003)


                                                   (Aguarelas de Turner- 2003)      
            Impossível não nos sentirmos esmagados quando nos confrontamos com a fúria dos elementos. Eles mostram-nos, de uma forma dramática, a sua poderosa energia destruidora face à nossa imensa fragilidade.
 Visitei a Madeira, a última vez em 2003. Tive a oportunidade de a percorrer em todas as direcções, tendo guardado como melhores recordações as paisagens naturais. Foi aí que eu gostei de estar, foi aí que me senti bem. A cidade do Funchal impressionou-me, negativamente, pela sobrecarga de empreendimentos turísticos, pela ocupação do espaço, quase claustrofóbica. Hoje, face ao momento dramático que a Madeira atravessa, senti necessidade de rever as fotografias que então tirei. Descobri que muito poucas coisas do Funchal fotografara. A Madeira para mim tinha sido, como já fora no passado, a ilha em toda a sua pujança, a ilha das montanhas, das quebradas, da floresta de laurissilva, do planalto do Fanal, do Pico do Areeiro, de Machico, Porto Moniz, Ribeira Brava...
Agora que todo este drama nos aconteceu é, antes de mais, hora de sermos solidários com todos os que sofrem as perdas humanas, os que perdem os seus bens e todos os seus cantos repletos de memórias. Todavia, a vida daqui para a frente não se poderá fazer sem se reverter completamente a forma de olhar os lugares em que habitamos. Eles, antes de tudo, tem características que terão de ser respeitadas. A grande tragédia da "civilização", tem sido a arrogância humana que usa a Natureza e a malbarata, deixando de saber ouvir o seu pulsar. Muito teríamos a aprender com as civilizações ditas "primitivas" que sabem olhar o Homem numa relação de consonância com o meio que o envolve.

sábado, fevereiro 20, 2010

Paul Anka - do que me fui lembrar...


O pequeno gira-discos entrou na nossa casa nos tempos em que Paul Anka cantava assim. Lembro-me dos pequenos quarenta e cinco rotações que vi pela primeira vez- Paul Anka, Pat Boone- uns rapazes bonitões, sorridentes e de voz cheia. Havia também um Paul Robeson e outros mais que a memória desfocou. Estes primeiros ficaram e, de uma forma tão nítida e precisa, que quase saberia descrever a camisa de quadrados que o Pat Boone usava naquela capa de disco. Aos poucos a colecção foi aumentando. De vez em quando, lá trazia o meu pai mais um, que escutávamos com todo o entusiasmo. Os grandes setenta e oito rotações, os clássicos, a par das deliciosas histórias infantis. Mais tarde chegaram os "Vampiros" e "O Menino do Bairro Negro"que ouvíamos, à porta fechada. 
E tudo aquilo fazia a nossa alegria, constituindo-se como  "biblioteca" de  afectos.  
Há pouco, ao revisitar algumas fotografias desses tempos, "ouvi" cá dentro uma destss canções. São estes os mistérios da memória...

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Esse poeta és tu, mestre da inquietação serena...

 A um Negrilho

Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos
são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho,
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

(Miguel Torga- Diário VII-1956)

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Havia tanta coisa a aprender...

                                                      
                                           (Picasso e Lumb)
Era a primeira vez em toda a sua vida que desfrutava da companhia de um animal. Em miúdo, os pais sempre se tinham oposto a que tivesse um animal de estimação. Gatos, tartarugas, periquitos, porquinhos-da-índia, peixinhos dourados-não, nem pensar, na casa dos Gurevitch não entravam bichos. O apartamento era demasiado pequeno, diziam eles; ou: animais em casa só trazem porcaria; ou: os bichos custam dinheiro; ou: Willy não era suficientemente responsável. Por conseguinte, até ao momento em que Mr.Bones entrou na sua vida, Willy nunca tivera a oportunidade de observar de perto o comportamento de um cão, e também nunca se dera ao trabalho de pensar muito no assunto. Para ele, os cães mais não eram do que vagas presenças, figuras imprecisas pairando no limiar da consciência. Evitava aqueles que lhe ladravam, fazia umas festinhas naqueles que o lambiam. Estes eram os limites da ciência canina de Willy. Subitamente, dois meses após o seu trigésimo  oitavo aniversário, tudo isso mudou.
Havia tanta coisa a aprender, tantas informações a assimilar, a decifrar, a entender, que Willy nem sabia por onde começar. A cauda a abanar em oposição à cauda entre as pernas. As orelhas espetadas em oposição às orelhas flácidas. O pôr-se de barriga para o ar, as corridas em círculos, as cheiradelas aos cus dos outros cães, e as rosnadelas,  os saltos género canguru e os rodopios no ar, o rastejar agachado como que à espreita da caça, os dentes arreganhados, a cabeça empinada e mais uma centena de pormenores, cada um deles a expressão de um pensamento, de um sentimento, de um plano, de um anseio. Willy achava que era com aprender a falar uma nova língua, como tropeçar numa tribo de homens primitivos há muito perdida e ter de decifrar os seus usos e costumes.

(Paul Auster- Timbuktu)

terça-feira, fevereiro 16, 2010

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Incontáveis...rasgam, sinuosos, a rocha...

                                 (Ana de Sousa)


Sete Meditações sobre os rios

Incontáveis, e rasos, rasgam
sinuosos, a rocha: abrem
pequenos sulcos, breves, sem
rumor, os caminhos leves: travam

em si a luta: haver, além
a extensão onde, o longo, outro
rio, foz, já corre,- encontro
ou fim? Ou, ainda, voo? Quem

vendo o curso, o frio, desce? Se
sobe, entre pedras, sobre
o leito, denso, nasce. É

aí o nome, o golpe: face
contínua das coisas, da morte. E cobre
a terra, a dor: o fundo, o pé.

(Diogo Alcoforado)

domingo, fevereiro 14, 2010

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Desce pelos bosques como uma menina descalça

                              (Henry Lamb)

                                       A Leitora
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Lausanne emergia na sua memória...

                                     (Turner- Funeral at Lausanne)
               As poucas poucas figuras de preto, o grupo de choupos, a luz a derramar-se na água o ma-
ciço de Cader Idris do lado direito, tais eram os elementos de um cenário de despedida que, e isto é curioso, redescobri um par de semanas depois num dos esboços rápidos a aguarela que Turner fazia muitas vezes para registar um lugar que tivesse diante dos olhos ou, mais tarde, como retrospectiva do passado. Esse quadro quase sem substância, que tem por título Funeral at Lausanne, data de 1841, portanto de uma época em que Turner já quase não podia viajar, remoía cada vez mais ideias sobre a sua própria mortalidade, e talvez por essa razão, quando uma coisa como esse pequeno cortejo em Lausanne emergia na sua memória, ele procurava com algumas pinceladas captar essas visões que podiam desvanecer-se no momento seguinte. o que me atraiu especialmente na aguarela de Turner, disse Austertitz, não foi apenas a semelhança entre a cena de Lausanne e a de Cutiau, mas a recordação que despertou em mim do último  passeio com Gerald, no princípio do Verão de 1966, pelos vinhedos de Morges, na margem do lago Genebra. No decurso dos meus estudos posteriores dos cadernos de esquissos de Turner, deparei com o facto, em si de todo insignificante mas que no entanto achei profundamente comovente, de ele, Turner, no ano de 1798, durante uma viagem pelo País de Gales, ter estado também na foz do Mawddach e ter nessa altura exactamente a mesma idade que eu no funeral em Cutiau. Quando falo nisso agora, disse Austerlitz, é como se ainda ontem tivesse estado na drawing-room virada a sul de Andromeda Logde entre as pessoas de luto, como ainda as ouvisse falar em voz baixa e Adele a dizer, como então disse, que não sabia para onde se virar, agora que estava sozinha naquela grande casa.(...)
   
(W.G. Sebald- Austerlitz)

domingo, fevereiro 07, 2010

e em lisboa é o único a subir na vertical...



podes caber à larga e não à justa no elevador de
                                                   [ santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário
                                                         [normal,
mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascencional.
podes subir até ao miradouro se a altura não te
                                                   [ assusta:
lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é 
                                                    [tridimensional,
podes subir sozinho, há muito espaço experimental.
noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta,
e em lisboa é o único a subir na vertical.

(Vasco Graça Moura)

Recordando Leo Ferré

sábado, fevereiro 06, 2010

Os amigos amei...


Os amigos amei                         (Valloton)
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

For me formidable...Azanavour

Quando eu sonhava...

                                                 (Steichen- Matisse) 
       Quando Eu Sonhava
 
Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia ...

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

De Sábado para Domingo um filme-Invictus- Clint Eastwood

 

Vivemos diariamente nos nossos círculos mais restritos ou alargados, manifestações de intolerância, por vezes, convenientemente camufladas por polimentos classistas  de natureza vária. O sentimento de superioridade  leva a que se olhe o diferente como não-pertença do nosso género, sendo  portanto um elemento a excluir de forma subtil ou radical. Engenhosamente construímos maneiras de deixarmos ocultos os nossos lados negros, estúpidos ou  disformes, projectando-os nos écrans que são os outros, conseguindo assim continuar a olharmo-nos acima de qualquer suspeita.
Vem isto a propósito do filme Invicius, visto na tarde de ontem. Clint EastWood trouxe-nos, uma vez mais, uma obra notável. A história de um homem que depois de trinta anos de cativeiro, soube olhar os que foram responsáveis ou subscreveram um sistema violento e discriminatório, como iguais. Tudo isto, transformando um jogo considerado como coutada dos brancos num corpo de união de toda a nação sul-africana. Um hino ao Homem que Mandela incarna.