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segunda-feira, dezembro 28, 2009

Até 2010!


                             (Aguarelas de Turner)
Estarei ausente deste canto até aos primeiros dias do novo ano. Os tempos que atravessamos não nos têm trazido grandes motivos de júbilo. Poder-se-á, no entanto, questionar se a existência, vista à escala microscópica do nosso dia-a-dia, terá em alguma época trazido motivos de júbilo. Ao longo da minha vida olho as transformações operadas  como mudanças lentas que se vão dando ao longo do tempo e que se tornam pouco visíveis se as olhamos de perto. No entanto, se pensarmos nos últimos cinquenta anos, quase todos nós nos sentimos satisfeitos por termos percorrido já este caminho que nos afasta dos tempos "medievais" da nossa infância, que a única coisa que tinha de maravilhosa era o de ser a" nossa infância". Também hoje, o pessimismo que nos atravessa não se deve exclusivamente a causas externas mas à realidade de sentirmos curto o tempo para todo o nosso sonho. Esquecemo-nos então de darmos uns passos atrás, para termos uma visão de conjunto, e olhamos o que nos rodeia com os olhos da tristeza de não sermos imortais. Este olhar "microscópico" não é, todavia, um olhar vão. É um olhar que grita o desejo que temos de fazer melhor, de vermos todos os humanos, por igual, com condições de dignidade e de desenvolvimento. É aqui que todos não 
podemos deixar  de continuar a dizer. Se cada um de nós fizesse o exercício, simples, de pensar que o acaso poderia tê-lo feito nascer num desses países esquecidos onde a rudimentar alimentação é uma guerra diária, se cada um de nós ( e em especial, os que detêm o poder) suportasse, por instantes, a dor de se imaginar no limiar da sobrevivência, talvez cada acto, cada iniciativa, tivesse de ter, permanentemente em conta os esquecidos da sorte.
    Quero despedir-me dos meus amigos fazendo votos para  que todos os que nos encontramos por "estas paragens" não deixemos de  manter as duas visões da existência: a que "grita" o que está mal e a que "vê" o que vai podendo evoluir. Viver, inteiramente, o presente, transformando-o sempre que possível, parece-me ser a única maneira de nos sentirmos Vivos.
Até 2010, queridos amigos!

Só a rajada de vento dá o som lírico às pás do moinho..


                                           (Leighton)

Da Voz das Coisas


Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


(Fiama Hasse de Pais Brandão- As Fábulas,2002)

domingo, dezembro 27, 2009

As nuvens não passam de convidados...


Corro, só isso. Corro no vazio. Dito de outro modo: corro para atingir o vazio. No entanto, há sempre um pensamento ou outro que acaba por se introduzir nesse vazio. O espírito humano  não pode ser um vazio completo. As emoções dos homens não se revelam suficientemente fortes ou consistentes, ao ponto de albergarem o vazio. Quero com isto dizer que os pensamentos e ideias que invadem o meu espírito  enquanto corro permanecem subordinados a esse espaço oco. Na medida em que lhe falta conteúdo, mais não são do que pensamentos ao correr da pena que têm como eixo a natureza do próprio vazio.
As coisas que me vêm à cabeça enquanto corro são como nuvens no céu. Nuvens nas diferentes formas e de diferentes tamanhos, que vão e vêm enquanto o céu permanece o mesmo de sempre. As nuvens não passam de convidados. Aproximam-se a passo, para depois se afastarem e desaparecerem no horizonte. Fica apenas o céu. Existe, ao mesmo tempo que não existe, o céu. Tem substância e ao mesmo tempo não tem. E nós limitamo-nos a aceitar a existência desse recipiente incomensurável tal como é e deixamo-nos envolver por ele.

(Haruki Murakami- Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo)

quinta-feira, dezembro 24, 2009

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Em jeito de mote a " O Vazio do Presépio" de "Ponteiros Parados"


Lá em minha casa foi um pouco diferente. O meu lado conservador está na árvore de Natal e o meu lado revolucionário está no presépio. Ora vejamos porquê.Os meus pais, num acto revolucionário, tinham relegado o presépio para os confins do nenhures. Faziam, contudo, da preparação da árvore de Natal um momento mágico. Cada bola, desembrulhada cuidadosamente, era colocada com todo o cuidado. Nós conhecíamos os enfeites, um a um, e tínhamos por eles o maior dos carinhos. E cada ano comprava-se sempre mais uma ou outra bola que vinha enriquecer o nosso "tesouro". Depois vinham as velas a sério( qual, luzes eléctricas...) que eram acesas num momento especial, sempre com muito cuidado, para que nenhuma pegasse ao pinheiro. Era tão bom aquele momento que chegámos a fazer uma cama junto à árvore para não perdermos nenhum momento. O vazio que mais tarde se gerou foi a dificuldade que senti de voltar a sentir o que sentia nesses tempos.A Árvore, continua a estar  presente cá em casa por esta altura, mas algures a chama apagou-se. A ela veio juntar-se há uns anos valentes um presépio. E porquê? Porque os filhos resolveram introduzir esse cunho humanizado ao Natal- um bebé, um pai e uma mãe e uma família alargada  com muitos bichinhos. A apanha do musgo passou a fazer parte dos novos rituais da casa. Perguntava-me sempre se não estaria a trair a minha tradição, mas encontrava sempre alguma consolação ao descobrir a alegria dos miúdos com a feitura do presépio. Assim, quando se quando fala de " o vazio do presépio" eu leio-o mais como o "vazio da magia". Julgo ser esse o melhor testemunho que poderemos transmitir aos nossos filhos e netos, e essa pode acontecer das mais variadas maneiras, ou então de maneira nenhuma.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Um velho livro de quadradinhos..



RECEITA PARA UM NATAL

Primeiro, ficar parado
durante um momento, de pé
ou sentado, numa sala ou mesmo
noutra dependência do lar.
Depois preparar
os olhos, as mãos, a memória
e outros utensílios indispensáveis. A seguir
começar a reunir
coisas, por ordem bem do interior
do coração e do pensamento:
a ternura dos avós, uma mancheia;
rostos de primos distantes, uma pitada;
sons de sinos ao longe, quanto baste;
a recordação duma rua, uns bocadinhos
um velho livro de quadradinhos
duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias,
a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes
e de uns já passados.
Quatro beijos de seres amados ou de parentes
um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados
e um pouco de azeite puro e fresco
igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.
Mexe-se bem, leva-se ao forno
e fica pronto e saboroso
- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.

Nicolau Saião


(publicado no "Aguarelas de Turner" no 1º Natal do blog -2005-e oferecido por "Ao longe barco de flores")

domingo, dezembro 20, 2009

Tudo começava pela cúmplice neblina


                                 (Turner)                
 
                                            PRELÚDIO DE NATAL  
                                                                 

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas


David Mourão-Ferreira

sábado, dezembro 19, 2009

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Natal à volta da lareira


                             (Aguarelas de Turner)

O Natal este ano aqui"abre-se", acendendo a lareira. Ela estará acesa enquanto durar esta época. Do Natal gosto, acima de tudo, da possibilidade de nos reunirmos em torno da família e dos amigos. Sentarmo-nos em torno de um fogo bem esperto e ateado, acende-nos o apetite para um convívio partilhado. Venham daí sempre que vos apetecer. Vamos conversar à volta da lareira.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

segunda-feira, dezembro 14, 2009

"Ágora" em debate



 Acabei de sair deste filme, não tendo tido ainda a distância suficiente para uma análise um pouco mais reflectida. Não me sentindo preparada para o analisar do ponto de vista da sua exatidão histórica, vi-o como um libelo contra todas as formas de violência presentes no dogmatismo das religiões e das ideologias. Contra a destruição da ciência, da cultura, do pensamento,  da independência e, em última instância, da vida,  é vital  e urgente continuarmos a erguermo-nos. Penso que seria um filme importante a ser visto e debatido nas aulas de história, filosofia e, porque não, de física e matemática. Temos o dever de continuar a denunciar e desmontar todas as formas de violência, "devidamente justificadas" por ideias ou por uma qualquer fé.

sábado, dezembro 12, 2009

Burros do Presépio- A Barbearia no seu melhor!


                                         (transformação de "Aguarelas de Turner")
Este nosso amigo ( "O jumento é nosso irmão/ quer queiram/ quer não"-Gonzagão) percorreu um árduo e doloroso caminho para se apresentar, a tempo e horas, no presépio da Barbearia. Assim, poderão melhor perceber esta sua expressão carente, esperando que a chuva que o encharcou durante a viagem, não o impossibilite de poder emitir os seus bafos, sempre tão desejados e necessários... Vai daqui um apelo  ao  dono do Presépio para que lhe proporcione um rápido aquecimento.                    

As estrelas acordavam do fundo do mar...



                             (Aivazovsky)

A UMA ESTRANGEIRA
Lembrança de uma noite no mar

Sens-tu mom coeur, comme il palpite?
Le tien comme il battait gaiement!
Je m'en vais pourtant, ma petite,
Bien loin, bien vite,
Toujours t'aimantChanson

Inês! nas terras distantes,
Aonde vives talvez,
Inda lembram-te os instantes
Daquela noite divina?...
Estrangeira, peregrina,
Quem sabes?- Lembras-te, Inês?

Branda noite! A noite imensa
Não era um ninho? - Talvez!...
Do Atlântico a vaga extensa
Não era um berço?- Oh Se o era...
Berço e ninho...ai primavera!
O ninho, o berço de Inês.

Às vezes estremecias...
Era de febre? Talvez...
Eu pegava-te as mãos frias
P´ra aquentá-las em meus beijos...
Oh! palidez! Oh! desejos!
Oh! longos cílios de Inês.

Na proa os nautas cantavam;
Eram saudades?...Talvez!
Nossos beijos estalavam
Como estala a castanhola...
Lembras-te acaso, espanhola?
Acaso lembras-te, Inês?

Meus olhos nos teus morriam...
Seria vida?- Talvez!
E meus prantos te diziam:
" Tu levas minh'alma , ó filha,
Nas rendas desta mantilha...
Na tua mantilha, Inês!"

De Cadiz o aroma ainda
Tinhas no seio...- Talvez!
De Buenos Aires a linda,
Volvendo aos lares, trazia
As rosas de Andaluzia
Nas lisas faces de Inês!

E volvia  a Americana
Do Plata às vagas...Talvez?
E a brisa amorosa, insana
Misturava os meus cabelos
Aos cachos escuros, belos,
Aos negros cachos de Inês!

As estrelas acordavam
Do fundo do mar...Talvez!
Na proa as ondas cantavam,
E a serenata divina
Tu, tu com a ponta da botina,
Marcavas no chão...Inês!

Não era cumplicidade
Do céu, dos mares? Talvez!
Dir-se-ia que a imensidade
- Conspiradora mimosa-
Dizia à vaga amorosa:
"Segreda amores a Inês!"

E como um véu transparente,
Um véu de noiva...talvez,
Da lua o raio tremente
Te enchia de casto brilho...
E a rastos no tombadilho
Caía a teus pés...Inês!

E essa noite delirante
Pudeste esquecer?- Talvez...
Ou talvez que neste instante,
Lembrando-te inda saudosa,
Suspires, moça formosa!...
Talvez te lembres ...Inês.

(Castro Alves- Lêdo Ivo selecção)

Pelos meus 13 anos, talvez, vibrei com a peça de teatro de Jorge Amado - O Amor do Soldado- escrita para celebrar o centenário do nascimento de Castro Alves, que morrera apenas com 24 anos, vítima de um desgosto amoroso que veio a culminar numa tuberculose. Esta peça foi-me trazida por uma amigo mais velho, sendo por nós lida e ensaiada vezes sem conta. Como memória esbatida recordo uma mescla entre um clima amoroso forte e intenso, aliado a uma "incendiada" luta política. O que um poema nos traz à ré....


quarta-feira, dezembro 09, 2009

terça-feira, dezembro 08, 2009

Pequena janela


                            Addiragram
Nota póstuma:

Houve uma migração acidental de um blog para outro.  Esta era uma foto que começara por pensar publicar no "Reflexos do Olhar", tendo acabado por a "pôr na prateleira". Como descobri que me enganei no lugar  resolvi deixá-la ficar, olhando-a mais como a foto que não conseguiu ser aquilo que sonhei, mas que busca novas oportunidades de se poder abrir a um novo olhar...
São sobretudo os erros que nos ensinam a querer continuar a procurar.

E depois os lapsos são sempre produtivos para o próprio, já que nos fazem discorrer sobre os caminhos que os traçaram.

Ela irá estender a sua larga saia...

                                     
                                        

                         (Keith Gantos)                    
                                          Devias ir
                                          de lugar em lugar
                                          para recuperar os poemas
                                          que foram escritos para ti,
                                          as quais poderias afixar a tua assinatura.
                                          Não fales destes assuntos
                                          com ninguém.
                                          Resgata, resgata.
                                          Quando o cesto estiver cheio
                                          há-de aparecer alguém
                                          a quem possas oferecer
                                          Ela irá estender a sua larga saia
                                          e sentar-se
                                          numa pedra preta
                                          e o teu cesto há-de ressaltar
                                          como uma mancha à luz do sol
                                          na imensa paisagem do teu regaço.


                                  (Leonard Cohen- Livro do Desejo)

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Seus caturras duma figa...

                                           


                                (Salvador Dali)              

                                                 Existe em Camarate,
                                                 Terreola suburbana
                                                 Uma quinta que encanta
                                                 Toda a alma...sendo humana!
                                                   
                                                 Ela é mesmo um paraíso!
                                                 Essa quinta que é minha
                                                 Chama-lhe a gente do sítio
                                                 Da Victória ou Ribeirinha.

                                                 Em essa bela vivenda
                                                 Em a qual eu fui criado,
                                                 Existe tudo o que existe
                                                 Desde a capela ao cerrado.

                                                Querem vender essa terra
                                                Porque faz muita despesa.
                                                Mas quando se fala disto
                                                Digo eu assim com aspreza:

                                               « Não vêem que esta quinta
                                               Dá uma fruta tão bela?
                                               Seus caturras duma figa
                                               Sejam gratos pra com ela».

             (Mário de Sá- Carneiro- 30 de Julho de 1903)

sábado, dezembro 05, 2009

Ouçamos .......

Cultura a desenvolver-se dentro de nós como um novo orgão...


Antes de prosseguir nas minha considerações sobre cultura não posso deixar de observar que o mundo enferma de fome e ignora a cultura e que a tentativa de reconduzir à cultura um pensamento ocupado apenas pela fome é um recurso por completo artificial.
O que acima de tudo importa, assim me parece, é não tanto defender uma cultura cuja existência jamais excluiu a fome e libertou o homem da preocupação de uma vida melhor, como extrair daquilo que se denomina cultura umas quantas ideias vectoriais cuja energia motriz equivalesse à da fome.
Antes de mais nada, necessitamos de viver, necessitamos de acreditar que não estamos condenados a que esse indefinido produto do misterioso íntimo de todos nós para sempre nos obceque com uma ansiedade exclusivamente gástrica. O que pretendo frisar é que, se o que mais nos importa é comer, de maior importância será ainda não desperdiçar unicamente nessa única preocupação  todo o nosso mero potencial de fome. Se o traço característico da nossa época é a confusão, distingo perfeitamente na raiz desta confusão uma ruptura entre as coisas e as palavras, entre as coisas e as ideias e os signos que as representam.
E a causa de tudo isto não é decerto a carência de sistemas filosóficos, pelo contrário, o facto de serem inúmeros e contraditórios caracteriza a nossa velha cultura francesa e europeia. Todavia em que é que estes sistemas afectaram jamais a vida, a nossa vida? Não pretendo afirmar que os sistemas filosóficos devam ser postos em prática directa e imediatamente, mas das alternativas que passo a expor uma terá de ser verdadeira: Ou estes sistemas estão dentro de nós e impregnam  o nosso ser a ponto de servirem de manutenção à própria vida ( e se é este o caso, de que servem os livros?) ou então não penetram em nós e não têm, por consequência, possibilidade de prover à subsistência da vida (que importa nesse caso a sua desaparição?).
Temos de insistir numa ideia de cultura-em-acção, cultura a desenvolver-se dentro de nós como um novo orgão, uma espécie de segundo hálito; e na de civilização como uma cultura aplicada, a controlar até às nossas acções mais subtis, uma presença de espírito. (...)

(Antonin Artaud- O teatro e o seu duplo)

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Feliz só será...




                                                           (Chagall)

Feliz só será
A alma que amar.

'Star alegre
E triste,
Perder-se a pensar,
Desejar
E recear
Suspensa em penar,
Saltar de prazer,
De aflição morrer —
Feliz só será
A alma que amar.

(Johann Wolfgang von Goethe, in "Canções"
Tradução de Paulo Quintela)

terça-feira, dezembro 01, 2009

A dificuldade de pensar o tempo ...


É portanto através de uma figura do excesso - o excesso de tempo- que começaremos por definir a situação de sobremodernidade, sugerindo que, devido às suas próprias contradições, ela oferece um magnífico terreno de observação e, no sentido pleno do termo, um objecto à investigação antropológica. Da sobremodernidade, poderíamos dizer que é a face de uma moeda da qual a pós-modernidade nos apresenta apenas o reverso- o positivo de um negativo. Do ponto de vista da sobremodernidade, a dificuldade de pensar o tempo está ligada à superabundância de acontecimentos do mundo contemporâneo, e não à derrocada de uma ideia de progresso de há muito posta em xeque, pelo menos sob as formas caricaturais que tornam a sua denúncia particularmente cómoda; o tema da história iminente, da história que não nos larga os calcanhares (quase imanente a cada uma das nossas existências quotidianas) surge como um preliminar ao tema do sentido ou do não-sentido da história: porque é da nossa exigência de compreender todo o presenteque decorre a nossa dificuldade de dar um sentido a um passado próximo; a busca positiva de sentido ( da qual o ideal democrático é, decerto, um aspecto essencial), que se manifesta entre os indivíduos das sociedades contemporâneas, pode explicar, paradoxalmente, os fenómenos que são por vezes interpretados como os sinais como uma crise de sentido, e entre outras coisas as decepções de todos os desiludidos da terra: desiludidso do socialismo, desiludidos do liberalismo, desiludidos do pos-comunismo, dentro em breve.

Marc Augé - Não-lugares. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade)