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quinta-feira, novembro 30, 2006

Sabia-se olhado como uma aparição enigmática...




O PRÍNCIPE REAL(cont)


Assim, com a bebida e a conversa pelo meio, iam correndo as nossas tardes, até que por volta das cinco horas dava entrada no jardim o príncipe do pato negro. Gravata de seda-luto, pendeadíssimo em negro espelhado, seguia por entre flores e relvados, de cabeça levantada e olhar perdido como se andasse no horizonte do mundo, indiferente a tudo mais.
Mas sabia-se olhado como uma aparição enigmática- e esse era o seu orgulho, não tenho dúvida. Por alguma razão alguém se exibe em público com um pato e, ainda por cima, um pato negro com uma pena amarela levantada em arco na cabeça.
"Trata-se dum pato chinês", dizia o dono do quiosque. "Daí aquela pena amarela".
Para a porteira do Poeta real, que o conhecia há mais de vinte anos( quer-se dizer, desde que ele e a defunta esposa tinham vindo morar para ali) o pato seria, antes,pata e quem assim falava sabia muito bem porquê. Repare, lembrava a porteira ao homem do quiosque, era naquele jardim que a mulher dele, o senhor Mendonça, o vinha esperar todas as tardes à saída do emprego quando era viva, e nessa altura nãso havia pato nenhum. Era ali que os dois davam uma voltinha antes de irem para casa, e era naquele mesmo banco onde ele agora lê o jornal que se sentavam em silêncio, frente ao canteiro das rosas damascenas tão do agrado da senhora. Ele agarrado ao Diário da Tarde,ela a admirar as flores da sua predilecção, então isto não lhe diz nada?, perguntava a porteira ao dono do botequim.
Não?Pois à porteira dizia-lhe tudo. Na sua opinião o pato não era pato nem coisa nenhuma; era, explicou ela mil vezes à janela do quiosque, uma reencarnação da falecida e Deus se lhe dera aquela forma lá tinha as suas razões.
Ah bem, pois sim. O do quiosque ouvia-a de cara séria e passava a diante porque sabia que a mulher era uma fanática dos espíritos, uma esparvoada que acreditava que a pessoa, depois de morta, voltava ao mundo em forma de gente ou de animal de estimação para chatear os que andam por cá. A isso chamavam lá na seita dela a passagem da alma ou outra coisa qualquer, e só um desgraçado dum comerciante tão modesto como ele tinha de aturar conversas misteriosas desta espécie porque a porteira, além de vizinha, era uma cliente certa da lotaria, do totoloto e de tudo o que metesse números do destino. (cont)

José Cardoso Pires (A cavalo no Diabo)

quarta-feira, novembro 29, 2006

Reflexos do Olhar LXVI

(Aguarelas de Turner) templo de Poseidon- Cabo Sounion

terça-feira, novembro 28, 2006

Imagina...

(Magritte)

Imagina


Imagina
Imagina
Hoje à noite
A gente se peder
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar
Quem já viu a lua cris
Quando a lua começa a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar
Meu amor
Abre a porta pra noite passar
E olha o sol
Da manhã
Olha a chuva
Olha a chuva, olha o sol, olha o dia a lançar
Serpentinas
Serpentinas pelo céu
Sete fitas
Coloridas
Sete vias
Sete vidas
Avenidas
Pra qualquer lugar
Imagina
Imagina

Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris vira moça, vira
A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho vira volta a ser rapaz
A menina que passou no arco era o
Menino que passou no arco
E vai virar menina
Imagina
Imagina
Imagina

Imagina
Imagina
Hoje à noite
A gente se perder
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar

Chico Buarque e Tom Jobim

segunda-feira, novembro 27, 2006

BOA NOITE CESARINY

(Magritte)



lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny

domingo, novembro 26, 2006

...fim de domingo

Aquele que a si se impõe contentamento
Faz a vida veloz desaparecer
Mas aquele que beija a alegria à medida que ela passa
Vive em eterno nascer do sol

(Blake , 1972)

Reflexos do Olhar LXV

UM DOMINGO COM MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

(Dali)

Ápice

O raio do sol da tarde

Que uma janela perdida
Refletiu
Num instante indiferente —
Arde,
Numa lembrança esvaída,
À minha memória de hoje
Subitamente...


Seu efêmero arrepio
Ziguezagueia, ondula, foge,
Pela minha retentiva...
— E não poder adivinhar
Porque mistério se me evoca
Esta idéia fugitiva,
Tão débil que mal me toca!...


— Ah, não sei porquê, mas certamente
raio cadente
Alguma coisa foi na minha sorte
Que a sua projeção atravessou...


Tanto segredo no destino de uma vida...
É como a idéia de Norte,
Preconcebida,
Que sempre me acompanhou...


( Mário de Sá-Carneiro)

sábado, novembro 25, 2006

Secretas vêm, cheias de memória...

(Alma)



As palavras

São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, novembro 24, 2006

Alguém que numa cidade se passeia com um pato tem alma de poeta...

Principe Real


O Príncipe Real

Se há jardim de Lisboa que me dê gosto maior é o do Príncipe Real. Primeiro, por causa da árvore-mãe que tem ao centro, baixinha e de ventre antigo, e de ramagem tão extensa que dá abrigo a meio mundo.Depois porque o conheci rodeado de poetas, uns em verso, outros em prosa: O' Neill morou-lhe quase em frente, na rua da Escola Politécnica, Vieira de Almeida mesmo ao lado, Ruy Cinatti na rua da Palmeira e Agostinho da Silva na Travessa do Abarracamento de Peniche que é um recanto pacífico para meditar. Isso para não falar já do Poeta Real que se chamava Mendonça e que nunca escreveu coisíssima nenhuma na vida, pelo menos que se saiba. Fizémo-lo poeta, eu e alguns amigos, porque se passeava no jardim acompanhado dum pato negro, com a solenidade dum letrado do Olimpo. Alguém que numa cidade se passeia com um pato é poeta ou tem alma disso. No entanto, se nós, em vez de poeta, o tivessemos feito Príncipe Real também não ficaria pior porque condizia com a majestade com que ele atravessava a paisagem.
Finalmente o quiosque. Importante não esquecer o quiosque neste jardim porque ali se servia a melhor ginja-com-elas de Lisboa ao balcão da janelinha e sabiam-se enredos que se passavam a toda a volta. Enjaulado no seu posto, o patrão da ginjinha, tabacos e lotarias, contava casos de sentimento, velhices adormecidas, drogados de aflição e tudo o mais que ocorria naqueles bancos à beira-relva.(cont)
José Cardoso Pires (A Cavalo no Diabo)

quinta-feira, novembro 23, 2006

Reflexos do Olhar LXIV

braço amigo...

Chove...mas isso que importa?




CHOVE!

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, novembro 22, 2006

Acenda a lâmpada às seis da tarde...

(Nelson Reed)

acenda a lampada às seis horas da tarde
acenda a luz dos lampiões
inflame
a chama dos salões
fogos de línguas de dragões
vagalumes

numa nuvem de poeira de neon
tudo é claro
tudo é claro
a noite assim que é bom



a luz acesa na janela lá de casa
o fogo
o foco lá no beco
e o farol

esta noite vai ter sol


(Paulo Leminski)

terça-feira, novembro 21, 2006

Reflexos do Olhar LXIII

(Aguarelas e Turner) caminhos...

Levas um manto de flores tecido...



Canção


Levas um manto
de flores tecido;
a trama foi feita
de ouro aos fios;
as franjas atadas
por esta ternura,
finas, seguras
das minhas pupilas.

América do Sul, Quíchuas


Mudado para português por Herberto Hélder -in Rosa do Mundo


__________
Quíchua é uma etnia de indígenas sul-americanos que, antes da chegada do colonizador espanhol, habitava extensas áreas do continente. Hoje restam poucos agrupamentos de quíchuas, dispersos ao longo dos Andes, que ainda preservam a língua quíchua.(wikipedia)



____________________________
Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/

segunda-feira, novembro 20, 2006

É do mundo afectivo que o actor tem de estar consciente...

( Se-Menen-Ka-Ra)
Para utilizar a sua afectividade como o lutador utiliza os músculos, o actor tem de considerar o ser humano como um Duplo, como o Ka dos Embalsamados, no Egipto, espectro perene de onde irradiam as potências da afectividade.
Espectro plástico, para sempre inacabado, cujas formas são autenticamente macaqueadas pelo verdadeiro actor, e ao qual impõe também formas e a imagem da sua sensibilidade própria.
É sobre esse duplo que o teatro exerce influência, é esta efígie espectral que o teatro molda, e, tal como todos os espectros, este duplo é de longa memória. A memória do coração resiste e é, sem dúvida com o coração que o actor pensa; aqui é o coração que domina.
Isto significa que, no teatro, mais do que em qualquer outra parte, é do mundo afectivo que o actor tem de estar consciente, imputando-lhe propriedades que não são as duma imagem, mas que comportem um significado material.

Antonin Artaud ( O Teatro e o seu Duplo- Ed Fenda )

domingo, novembro 19, 2006

...fim de domingo.

Amar é descobrirmos a nossa riqueza fora de nós .

Alain

UM DOMINGO COM DENIS,REY



Ai, flores, ai, flores do verde pino

--- Ai, flores, ai, flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai, Deus, e u é?

Ai, flores, ai, flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi à jurado?
Ai, Deus, e u é?

--- Vós me preguntades polo vosso amigo?
E eu ben vos digo que é sano e vivo.
Ai, Deus, e u é?

Vós me preguntades polo vosso amado?
E eu ben vos digo que é vivo e sano.
Ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é sano e vivo
e seerá vosco ante o prazo saido.
Ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é vivo e sano
e seerá vosco ante o prazo passado.
Ai, Deus, e u é?

El-Rei D. Dinis

quinta-feira, novembro 16, 2006

Reflexos do Olhar LXII

(Aguarelas de Turner) ..."ai flores,ai flores do verdo pino..."

terça-feira, novembro 14, 2006

Fica sempre num caminho um recordar...






O POETA

Quando um homem se põe a caminhar
deixa um pouco de si pelo caminho.
Vai inteiro ao partir repartido ao chegar.
O resto fica sempre no caminho
quando um homem de põe a caminhar.

Fica sempre no caminho um recordar
fica sempre no caminho um pouco mais
do que tinha ao partir do que tem ao chegar.
Fica um homem que não volta nunca mais
quando um homem de põe a caminhar.

Vão-se os rios sem margens para o mar.
Ai rio da memória: só imagens.
O mais é só um verde recordar
é um ficar( sem as levar) nas verdes margens
Quando um homem de põe a caminhar.

Manuel Alegre ( Um barco para Ítaca)

segunda-feira, novembro 13, 2006

Reflexos do Olhar LXI

(Aguarelas de Turner) ...também gosto destas..

domingo, novembro 12, 2006

...fim de domingo



Ora o amor não e tesouro a conquistar, mas obrigação de parte a parte, fruto de um cerimonial aceite, rosto dos caminhos da troca. Jamais essa mulher nascerá. Só de uma rede de laços se pode nascer.

Antoine de Saint-Exupéry, in 'Cidadela'

UM DOMINGO COM YVETTE CENTENO

( Carlos Botelho)


Despedida


sentei-me ao sol
no alto das escadas de Alcântra
a ver os barcos
o rio
os carros que faziam barulho
lá em baixo

fiquei assim muito tempo
sentada ao sol
deixei o sol aquecer
um corpo que já tremia
por ter ficado sozinho

perplexo
sem resistência
por ter ficado sozinho
o corpo já se morria

todas as árvores são
aquelas mesmas árvores que eu vi?
e o céu
é sempre o mesmo céu?
e a terra em que me deito
é sempre a mesma terra
quer eu diga que vivo
ou que morri?

Y.K.Centeno

Reflexos do Olhar LX

Querença -Igreja Matriz ,portal Manuelino

sábado, novembro 11, 2006

Nunca me esquecerei...

(Gérard Castello Lopes)

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drumond de Andrade

Reflexos do Olhar LIX

















dança de luz

sexta-feira, novembro 10, 2006

Não basta abrir a janela...


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores; há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Fernando Pessoa (Ficções do Interlúdio)

Reflexos do Olhar LVIII


para lá da rede...

quinta-feira, novembro 09, 2006

A Arte de ser feliz

(Chagall)


A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

quarta-feira, novembro 08, 2006

Reflexos do Olhar LVII

(Aguarelas de Turner) p'rá colecção...

Há ferverosas cidades sob arcos pensadores...

(Canaletto)

IV
Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente.Onde
às vezes param e são morosas
por dentro.Há cidades absolutas
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem.Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.


Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde
uma paixão bárbara, um amor.
Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há ferverosas e leves cidades sob arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror das semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
Olho minha loucura, escada
sobre escada.

.................................

Herberto Helder (Lugar)

terça-feira, novembro 07, 2006

Como ter uma opinião ?

(Dawn)

Sim, talvez ela gostasse de que lhe perguntasse qual o nosso destino ou de que, afinal, lhe dissesse qualquer coisa sobre a minha partida, ou sobretudo o crepúsculo, ou sobre o mar, ou sobre o andamento do barco, ou mesmo sobre os sentimentos que me assaltavam por me encontrar a bordo, assim subitamente, depois de ter passado oito anos no Registo civil ignorando que este barco existia, que ela existia, que ele existia, enquanto passava certidões de nascimento, que existiam mulheres como ela que consagravam a existência à procura de marinheiros de Gibraltar.
De tanto a ouvir passar e voltar por trás de mim, poderia pensar que esperava a minha opinião sobre estas coisas tão novas para mim, para me vigiar, por assim dizer, mas sem se aperceber. Mas, como ter uma opinião, mesmo sobre um crepúsculo, mesmo sobre o estado do mar? A partir do momento do embarque, e mesmo assim sem assim decidirmos, impossível ter uma opinião,mesmo sobre o sol-poente.

Marguerite Duras (O Marinheiro de Gibraltar)

segunda-feira, novembro 06, 2006

Recordando Jacques Prévert




Pour toi mon amour


Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
De lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
Mon amour



Jacques Prevert

Reflexos do Olhar LVI

nos limites do possível...

domingo, novembro 05, 2006

...fim de domingo


"Quanto mais objectos de interesse um homem tem, mais ocasiões tem também de ser feliz e menos está á mercê do destino, pois se perder um pode recorrer a outro. A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias. Somos todos propensos à doença do introvertido que, perante o multiforme espectáculo que o mundo lhe oferece, desvia a vista para contemplar somente o vazio dentro de si."

Bertrand Russell, in 'A Conquista da Felicidade'

UM DOMINGO COM W.B.YEATS

(Aivazovsky)

O SEU TRIUNFO

Cumpri a vontade do dragão até que chegaste
Pois imaginara o amor uma improvisação
Casual, ou um jogo estabelecido
Que acontecia se deixava cair o lenço:
Melhores eram os actos que davam asas ao instante
E música celestial se lhe davam engenho;
E então ficaste entre os anéis do dragão.
Trocei, sendo louco, mas tu dominaste-o
E quebrando a cadeia libertaste os meus tornozelos,
São Jorge ou talvez um Perseu pagão;
E agora olhamos assombradamente o mar,
E uma estranha ave milagrosa grita por nós.

W.B.Yeats (Uma antologia)

Reflexos do Olhar LV

Foz do Arelho - união feliz

Ojos de infinito que miram al infinito blanco...




LLUVIA

La lluvia tiene un vago secreto de ternura,
algo de soñolencia resignada y amable,
una música humilde se despierta con ella
que hace vibrar el alma dormida del paisaje.

Es un besar azul que recibe la Tierra,
el mito primitivo que vuelve a realizarse.
El contacto ya frío de cielo y tierra viejos
con una mansedumbre de atardecer constante.

Es la aurora del fruto. La que nos trae las flores
y nos unge de espíritu santo de los mares.
La que derrama vida sobre las sementeras
y en el alma tristeza de lo que no se sabe.

La nostalgia terrible de una vida perdida,
el fatal sentimiento de haber nacido tarde,
o la ilusión inquieta de un mañana imposible
con la inquietud cercana del color de la carne.

El amor se despierta en el gris de su ritmo,
nuestro cielo interior tiene un triunfo de sangre,
pero nuestro optimismo se convierte en tristeza
al contemplar las gotas muertas en los cristales.

Y son las gotas: ojos de infinito que miran
al infinito blanco que les sirvió de madre.

Cada gota de lluvia tiembla en el cristal turbio
y le dejan divinas heridas de diamante.
Son poetas del agua que han visto y que meditan
lo que la muchedumbre de los ríos no sabe.

¡Oh lluvia silenciosa, sin tormentas ni vientos,
lluvia mansa y serena de esquila y luz suave,
lluvia buena y pacifica que eres la verdadera,
la que llorosa y triste sobre las cosas caes!

¡Oh lluvia franciscana que llevas a tus gotas
almas de fuentes claras y humildes manantiales!
Cuando sobre los campos desciendes lentamente
las rosas de mi pecho con tus sonidos abres.

El canto primitivo que dices al silencio
y la historia sonora que cuentas al ramaje
los comenta llorando mi corazón desierto
en un negro y profundo pentagrama sin clave.

Mi alma tiene tristeza de la lluvia serena,
tristeza resignada de cosa irrealizable,
tengo en el horizonte un lucero encendido
y el corazón me impide que corra a contemplarte.

¡Oh lluvia silenciosa que los árboles aman
y eres sobre el piano dulzura emocionante;
das al alma las mismas nieblas y resonancias
que pones en el alma dormida del paisaje!

Frederico Garcia Lorca

sexta-feira, novembro 03, 2006

Reflexos do Olhar LIV

geografia dos materiais

Continuam as noites e os poentes...



O JARDIM E A CASA


Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen (poesia)

quarta-feira, novembro 01, 2006

Flores na janela...


(Robert Adams)

NANTUCKET




Flores na janela
roxo-claro e amarelas


alteradas por cortinas brancas-
Cheiro a limpo-


Sol do entardecer-
Na bandeja de vidro


um jarro de vidro, o copo
voltado para baixo, e junto ao copo


uma chave-E o
branco leito imaculado


William Carlos Williams (Antologia breve)

Reflexos do Olhar LIII

pequeninas ervilhas