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domingo, julho 30, 2006

E não pergunto nada. Espero que amanheça...



Imagem



Tão brando é o movimento
das estrelas, da lua,
das nuvens e do vento,
que se desenha a tua
face no firmamento.


Desenha-se tão pura
como nunca a tiveste,
nem nenhuma criatura.
Pois é sombra celeste
da terrena aventura.


Como um cristal se aquieta
minha vida no sono,
venturosa e completa.
E teu rosto aprisiono
em grave luz secreta.


Teu silêncio em meu peito
de tal maneira existe,
reconhecido e aceito,
que chego a ficar triste
de vê-lo tão perfeito.


E não pergunto nada.
Espero que amanheça,
e a cor da madrugada
pouse na tua cabeça
uma rosa encarnada.


Cecília Meireles

sábado, julho 29, 2006

É um pássaro, é uma rosa, é o mar que me acorda?



DESPERTAR



É um pássaro, é uma rosa,

é o mar que me acorda?

Pássaro ou rosa ou mar,

tudo é ardor, tudo é amor.

Acordar é ser rosa na rosa

canto na ave, água no mar.




Eugénio de Andrade

sexta-feira, julho 28, 2006

Existe no Museu do Havre....

( Boudin)

Existe no Museu do Havre uma pequena tela de Boudin, um grupo de senhoras que caminham pela praia cintilante, um rasto confuso de tecidos e rostos femininos numa paisagem de ar cinzento e água cinzenta.La Promenade à Scheveningue. Será por causa da desinência docemente prolongada deste nome pronunciado à francesa(Scheveningen é um nome holandês como qualquer outro) que esta praia ficou para mim o arquétipo de todas as praias do Norte? Com a mesma idade, que não é ainda, de resto, aquela em que se tem recordações, no começo da era em que o automóvel tornava fáceis as deslocações, devem-me ter levado, algumas vezes, a molhar os pés nas poças de água de Ostende, ou ainda na praia de Furnes ou na de Boulogne. Mas nada ficou. Pelo contrário, de Scheveninguen, que muitas vezes revi, reencontro ao mesmo tempo as minhas recordações de ontem, de antes de ontem, e as que creio minhas de há três quartos de século. Nenhuma necessidade de mergulharmos em nostalgias inúteis: tudo o que pertence à estação balneária é horrível e já o era em 1900. Os blocos de apartamentos alugados ao mês ou à estação parecem mais numerosos do que noutros tempos, mas alguns são palacetes reconvertidos. Chalés hoje com aspecto marciano, ontem ainda com aspecto gótico, toda a fealdade que a pompa burguesa pode produzir, exibem-se entre a praia e a estrada. O enorme casino que já existia com a sua orquestra de metais, à alemã, e o excesso de comestíveis que o ar do mar, que como se sabe faz um buraco no estômago, era suposto tornar indispensável. Julho-Agosto: durante os dois meses das férias grandes, que são também os das declarações de guerra, ou das guerras que já se declararam,autocarros e roulottes, nos dias de hoje, comboioss nesse tempo, vomitam hordas à procura de bom tempo à beira-mar.

Marguerite Yourcenar( O quê? A Eternidade)

quarta-feira, julho 26, 2006

Para ver a verdade para perder o medo...

(Bierstadt)


Para atravessar contigo o deserto do mundo


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Para ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andersen (Cem Poemas de Sofia)

terça-feira, julho 25, 2006

Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto....



os justos



Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.

Aquele que agradece que haja música na terra.

Aquele que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que num café do Sul jogam um xadrez silencioso.

O tipógrafo que compõe tão bem esta página que talvez não lhe agrade.

Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.

Aquele que agradece a presença na terra de Stevenson.

Aquele que prefere que sejam os outros a ter razão.

Essas pessoas, que se ignoram, vão salvando o mundo.





Jorge Luís Borges, poeta argentino (1899-1986)

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Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/

sábado, julho 22, 2006

Queres isto? Queres aquilo?



CANTO SEGUNDO

Esta manhã mal saí do portão
parecia-me ter esquecido alguma coisa em casa.
Dois passos até ao damasqueiro
e toca a regressar.

Agora que nada resta para fazer
fico sentado diante da janela
e pergunto-me a mim mesmo: Queres isto? Queres aquilo?

Deitei fogo a páginas de livros, a calendários
e mapas. Para mim a América
já não existe, a Austrália igualmente,
a China na minha cabeça é uma fragrância,
a Rússia uma alva teia de aranha
e a África o sonho de um copo de água.

Há dois ou três dias sigo os passos de Pinela, o camponês,
que procura o mel das abelhas selvagens.

Tonino Guerra (1920)- O Mel

quinta-feira, julho 13, 2006

Os poetas não tiveram razão...



Os poetas não tiveram pois razão pintando-nos o amor como um cego; é necessário tirar-lhe a sua venda, e devolver-lhe doravante o gozo dos olhos.
As almas apropriadas ao amor reclamam uma vida de acção que explode em acontecimentos novos. Como o interior é movimento,é necessário que também o exterior o seja, e tal maneira de viver é um maravilhoso encaminhamento para a paixão. É daí que vem que os da corte sejam melhor recebidos no amor que os da cidade, porque uns são todos eles fogo e os outros levam uma vida cuja uniformidade nada tem que fira:a vida de tempestade surpreende, fere e penetra.
Dir-se-ia que temos uma alma inteiramente diferente segundo amemos ou não amemos; elevamo-nos por meio dessa paixão e torna-mo-nos grandeza inteira; é necessário pois que o resto guarde a proporção; de outro modo deixa de convir, e é por conseguinte desagradável.

Blaise Pascal (Discurso sobre as paixões do amor)

quarta-feira, julho 12, 2006

Vêm sofregos os peixes da madrugada...




Amor dos Fogos

.....vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos
.... vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir....
.... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras....
.... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

Al Berto

segunda-feira, julho 10, 2006

Nascemos com um carácter de amor...

(Welsmann)

Numa alma tudo é grande.
Perguntamos se devemos amar.É coisa que não devemos perguntar: devemos sentir.Não deliberamos a esse propósito, somos levados a fazê-lo, e temos prazer em nos enganarmos quando consultamos.
A limpidez do espírito causa também a limpidez da paixão; é por isso que um espírito grande e límpido ama com ardor, e vê distintamente o que ama.
Há duas espécies de espírito, um geométrico, e outro a que podemos chamar de finura.O primeiro tem vistas lentas, duras e inflexíveis: mas o último tem uma versatilidade de pensamento que o aplica ao mesmo tempo às diversas partes amáveis daquilo que ama. Dos olhos chega até ao coração, e pelo movimento do que há fora conhece o que se passa dentro.
Quando temos estes espíritos, um e outro juntos,como dá prazer o amor! Porque possuímos ao mesmo tempo a força e a flexibilidade do espírito, que é muito necessária á eloquência de duas pessoas.
Nascemos com um carácter de amor nos nossos corações, que se desenvolve à medida que o espírito se aperfeiçoa, e que nos leva a amar o que nos parece belo sem que jamais nos tenham dito o que isso é.Quem poderá duvidar assim de não estarmos no mundo para outra coisa que não amar?
(....)

Blaise Pascal(Discurso sobre as Paixões do Amor)Fenda Edições

sábado, julho 08, 2006

L´homme y passe à travers des forêts de symboles...

(Renoir)

Correspondances


La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles ;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
- Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.


Charles Baudelaire (Les Fleurs du Mal)

quarta-feira, julho 05, 2006

Assim a Bétula...




ASSIM A BÉTULA

Esbelta e delgada como a esguia bétula,
de suave ondular como o leve trevo,
da doirada cor da manhã de verão,
do mundo inteiro é ela a glória.


Galês, trad oral (sec XVII)in O Imenso Adeus-Poemas Celtas do Amor

segunda-feira, julho 03, 2006

Peregrino, senta debaixo da ramagem...



A TÍLIA

Peregrino, senta debaixo da ramagem,
Descansa; eu prometo-sequer o sol selvagem
Aqui pode avançar.Porém os raios justos
Deverão as sombras aquietar nos arbustos.
Aqui sempre sopram brisas frescas do campo,
Rouxinóis e negras aves cantam seu canto.
Abelhas obreiras recolhem mel das flores
Perfumadas para brindar as mesas nobres.
E a todos os homens meu murmúrio sereno
Cobre facilmente de adocicado sono.
Maçãs não carrego, mas sou árvore farta
Das Hespérides no jardim, meu amo exorta.


Jan Kochanowski (1530-1584) in Rosa do Mundo- 2001 poemas para o Futuro

sábado, julho 01, 2006

Tal com a poesia é tensa, densa ,intensa...

( Picasso)

Arte da Pesca

Fala-se de pesca com expressões depreciativas, como , por exemplo, « dar banho à minhoca».E os pescadores são vistos, no mínimo, como lunáticos. Talvez sejam. Mas a pesca, ao contrário do que se pensa, requer uma total concentração. É um desporto activo, não passivo. Tal como a poesia, é tensa, densa, intensa. E tem como a caça, algo de mágico, iniciático, primordial. É quase um ritual litúrgico, uma forma de oficiar. Um reencontro do homem consigo mesmo, só perante as águas e o mistério. O momento mais intenso é aquele em que se adivinha o ataque.Há como que um contacto magnético entre o homem e o peixe.
Pescar não é esperar passivamente que o peixe morda. A pesca é um desporto de imaginação, criatividade, intuição. Acima de tudo sensibilidade. E também acção, muita acção,. Que muitas vezes começa antes, em casa, na loja de pesca, na escolha e preparação do material, na leitura e interpretação da tábua das marés, da lua, das condições atmosféricas. É preciso saber ler a água eo tempo, sentir e presentir o peixe, escolher a hora, o local, o ângulo em que se deve colocar para lançar com eficácia. A pesca com isco artificial, a pesca com amostra, que é a que pratico, é um pesca de contínuo movimento e actividade. Não se espera o peixe, procura-se, ataca-se, vai-se até ele. Há um certo gosto do risco. Quando se tem talento, até se inventa o peixe.
Para mim a pesca é uma necessidade física e espiritual. Quando pesco, á noite, aos robalos, na Foz do Arelho, eu que não sou crente, fico de repente místico, dou por mim a fazer perguntas metafísicas e a dizer coisas absurdas, como por exemplo: talvez Deus, afinal, seja um robalo grande.Se o pescador não se precata começa a falar alto e a fazer perguntas perigosas.
Finalmente os pescadores são discretos, quase secretos. Pescar é um acto solitário, mas também de partilha. A confraria dos pescadores é provavelmente a única onde não há outra diferença que não seja o talento de cadaum naquela arte. Porque já me esquecia de dizer a pesca é uma arte.

Manuel Alegre ( A Arte de Marear)

Sê como o orvalho e a luz recém-nascida...



Desperta com o sol, com a madrugada,
Desperta com o dia que aparece;
Sê com o orvalho e a luz recém-nascida
Mas, ao contrário deles, permanece.

As névoas se desprendem do que és;
Elas são só o que podemos ver.
Vem e entra nos nossos corações
E deixa aí a vida acontecer.

A manhã pertence ao mundo vazio;
Os homens aqui não chegam tão cedo,
Vem e deixa a vida desprender-se
Lenta, de ti, tal como o medo.

E em teu ser terrível nada mais:
Apenas tu, sem corpo ou alma, assim.
Verte o teu bálsamo na fronte triste
E faz a esperança cumprir-se em mim!

Fernando Pessoa (1888-1935)-Poesia Inglesa II