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terça-feira, fevereiro 28, 2006

A raíz da faia forte a terra vai aluindo...




Esta noite choveu oiro,
Diamantes orvalhou
Lá vem o sol com seus raios
Enxugar quem alagou.

A raiz da faia forte
A terra vai aluindo;
Vosso corpo vai crescendo,
Vossas feições vão abrindo.

Já chove água das nascentes
Já correm os regatinhos;
Já os campos são contentes,
Já cantam os passarinhos.


Cancioneiro popular

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Tudo é inimitável...



APONTAMENTO NO MUSEU DE NÁPOLES


Tudo é inimitável:
a cabeça quase em pudor reclinada
sobre o desalento
de um inverno distante,
os cabelos abertos na incerta
direcção dos ombros,
o pescoço igual a um fragmento de coluna
( é sempre tão longo caminho um fragmento),
as mãos incólumes que tornam
misterioso o fogo


José Tolentino de Mendonça ( De igual para igual)

domingo, fevereiro 26, 2006

Canção de Março

( Modigliani)

Uma criança chega
molhada de outro tempo
as nuvens que a protegem
são carne do mar

O passado é um lapso
quando a memória troca
os dias de penumbra
pla boca que devora

A criança retida
nos espasmos do ar
recupera a paisagem
do seu antigo exílio

As vespas vão voltar
a procurar as rosas
como um pastor deitado
numa cama de rocha

O corpo refreando a
ansiedade abriga
a incompleta infância
que lhe serve de guia.

Gastão Cruz (Crateras)

UM DOMINGO COM GASTÃO CRUZ




ÁRVORES


São plátanos palmeiras castanheiros
jacarandás amendoeiras e até as
oliveiras que
quando a noite cai na infância formam uma
cortina escura na estrada frente à casa
árvores apagando os dias que a memória
avidamente esconde


no corpo do seu gémeo Penetra inutilmente
na terra essa raíz do branco plátano
adolescente
e o campo do tempo onde as palmeiras eram
pilares do corpo nu símbolo de
si mesmo, à luz
do dia fixo, já se estende


na húmida manhã dos castanheiros
Esquecimento que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante luz igual à da
memória, do tempo como ela
filho, construtor da ausência,
em vão te invoco Tu


que mudas a roxa amendoeira
em brancas flores do jacarandá
entrega a minha vida às árvores
que foram na manhã e no crepúsculo
no meio-dia e na noite, palavra
clara que traz o dia em si fechado
o campo do passado.

Gastão Cruz ( Crateras)

sábado, fevereiro 25, 2006

A viagem é a única criadora de espaço...

(Monet)

A viagem é uma dependência gratificante
Habita em sonhos de rinocerontes albinos
Bebe as memória de leitos de rios secos
Testemunha miragens de montanhas purpura
Canta a sagacidade da savana

A viagem é inebriante
Lança-se nos cornos do incógnito
Voa em jeito de andorinha que orna o céu
Dimana como um instinto dos mares gelados
Fascina, qual arco-íris amparando o paraíso

A viagem é euforia
Exprime um milagre sempre incompleto
Delira em tempestades de areia nos pólos
Silhueta de águia contra a lua cheia
Raio de ouro suspendendo um meteorito

A viagem é a única criadora de espaço
Luz que celebra após o eclipse
Secreto idioma das nuvens
Gota de chuva que acaricia um botão de rosa
Borboleta escarlate voando sobre um glaciar

A viagem é destino em busca de morada
O sublime fogo de artifício do teu sorriso
O teu cabelo solto no vento do Cáspio
A tua voz ecoando nas colinas
Ilimitável e livre como o nosso amor


M.Daedalus

Quem nesta hora me pintasse...

(Dufy)


Demoro-me
à frente desta janela,
surpreendida e recolhida,
Quem nesta hora me pintasse...
pintaria a mulher
que busca o embevecimento
que goza
e quer gozar
um fugaz momento
de contemplação.
Noto
( não estou informando
o hipotético pintor...)
que levanto um braço
para traçar,
ou para segurar.


Irene Lisboa

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A vida é nuvem que voa...


A VIDA
(excerto)

A vida é o dia de hoje
A vida é ai que mal soa.
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou
A vida-pena caída
Da asa de ave ferida-
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!

João de Deus ( 1830-1896)

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Essa parcela de fogo misterioso...

(Bosch)


Em contrapartida, sempre que uma alma tem qualquer espécie de moral, de religião ou de filosofia, uma cultura burguesa profunda e certo número de ideais no domínio do dever e do belo, ela recebe em recompensa um sistema completo de prescrições, de condições, de regulamentos a que tem de se submeter mesmo antes de lhe ser possível aspirar a tornar-se uma alma superior;e o seu entusiasmo, como o ímpeto ardente de um alto forno, acaba por se canalisar através de belos moldes de areia.No fundo, apenas restam alguns problemas de interpretação lógica, como o de se saber se um acto está ou não de acordo com este ou aquele mandamento; a alma apresenta o carácter serenamente panorâmico de um campo de batalha após o combate; os mortos conservam-se tranquilos, de forma que é possível observar imediatamente onde continua a palpitar um resto de vida, ou um gemido.Eis por que motivo o homem realiza essa transição o mais depressa possível. Quando o atormenta alguma dúvida acerca da sua fé, como por vezes acontece durante a juventude, ele passa imediatamente a perseguir os incrédulos; quando o amor o incomoda, ele transforma-o em casamento; e quando qualquer outro entusiasmo se apodera de si, furta-se à impossibilidade de viver durante muito tempo no íntimo fogo que o consome, principiando a viver para esse mesmo fogo.(...) Apenas os loucos, os tarados, as pessoas com ideias fixas são capazes de se manterem durante muito tempo no fogo da alma em êxtase; o homem são deve contentar-se em explicar que a vida, sem essa parcela de fogo misterioso, se lhe não configuraria digna de ser vivida.

Robert Musil ( O Homem sem Qualidades)

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Na perfeição do ramo...



A ÁGUA


Na perfeição do ramo está a pedra. Na seiva
se descobre, no rumo se percebe.Tudo se vai
em rodas de mistério, a própria viração
é a certeza da água, da pureza da água.

Nos trabalhos humildes das nossas mãos capazes,
no seio das maçãs,
no verde-mar dos dedos,
na loucura dos medos,
Na perfeição do ramo está a pedra.


Pedro Támen

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Sorri do teu pensamento...



Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar para ti?
Pousa a tua mão na minha
E sem me olhares, sorri


Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero estar
Que é de mim que ele está feito
E que o tens para mo dar

Depois aperta-me a mão
E vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim?

Fernando Pessoa ( Poesias coligidas/ inéditas)

domingo, fevereiro 19, 2006

Com que doçura...




Madrugada no campo




Com que doçura essas brisa penteia
a verde seda fina do arrozal -
Nem cílios, nem pluma,
nem lume de lânguida lua,
Nem o suspiro do cristal.

Com que doçura a transparente aurora
tece na fina seda do arrozal
aéreos desenhos de orvalho!
Nem lágrima, nem pérola,
nem íris de cristal...

Com que doçura as borboletas brancas
prendem os fios verdes do arrozal
com seus leves laços!
Nem dedos, nem pétalas
nem frio aroma de anis em cristal

Com que doçura o pássaro imprevisto
de longe tomba no verde arrozal!
- Caído céu, flor azul, estrela última:
súbito sussurro e eco de cristal

in "Flor de poemas"- 1984

Cecília Meireles

Entre o planeta e o sem fim...




Canção Mínima

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta


Cecília Meireles

UM DOMINGO COM CECILIA MEIRELES

(Sorolla)

Encomenda


Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Cecília Meireles

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Sussurra quando passa por uma imagem tão leve...

(Bierman)


Ninguém se aproxima de ninguém se não for num murmúrio,
entre flores altas:camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue-as veias da garganta contra a boca.


Herberto Helder ( Poesia toda)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

E que tinha ela feito da vida?




«Lembras-te do lago?», perguntou ela, repentinamente, sob a pressão de um sentimento que lhe oprimia o coração, fazendo com que os músculos da garganta se lhe retesassem e os lábios se lhe contraíssem ao pronunciar a palavra «lago».Pois ela era ainda uma criança que, junto dos seus pais, atirava pão aos patos e ao mesmo tempo uma mulher madura que se dirigia aos pais, de pé na margem do lago, transportando nos braços a sua vida, uma vida que, à medida que deles se aproximava, ia crescendo, crescendo, até se tornar uma vida inteira, uma vida completa, que depunha aos pés deles, dizendo « Isto foi o que dela fiz! Isto» e que tinha ela feito da vida? O quê, de facto? Sentada ali nessa manhã, a coser, ao lado de Peter Walsh.
Olhou Peter. O seu olhar, atravessando todo esse tempo e todas essas emoções , alcançou-o a medo,fixou-se nele, emocionado, e depois levantou voo,como um pássaro que, mal pousa num ramo, logo levanta voo.Discretamente, enxugou as lágrimas.

Virginia Woolf ( Mrs.Dalloway )

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Pastoral

( Fox)


A terra inocente
abre-se ao ardor
de oiro duma flauta
- será que o pastor
ou a primavera
desperta e se exalta?

Eugénio de Andrade

domingo, fevereiro 12, 2006

UM DOMINGO COM FERNANDO ASSIS PACHECO

( Henri Martin)

PENSANDO EM VÓS,JUÍZES NOSSOS

Sabereis dizer do nosso tempo
que buscámos, no caos , uma saída?
Que às trevas de uma noite antárctica
lançámos o punhal
brilhante e certeiro do coração?
Que despertávamos antes da aurora,
pensando em vós, juízes nossos,
herdeiros nossos mais tranquilos e certos?



Olhai-nos sem rancor.Vede nos campos
a primavera que tanto amámos.
Essa flor, ou uma igual por essa,
também a prendemos nos cabelos
da única mulher, e em silêncio
lhe contámos as pétalas macias
enquanto o desejo nos inundava.



Entrai desprevenidos
nas oficinas, ouvi o calmo
bater do ferro aceso, olhai
como o douto carpinteiro afaga
o seu pedaço de castanho ( dir-se-ia
pescando no silêncio um delicado
peixe tranquilo, e era o guarda-fato),
correi às ínsuas, lá forceja o povo,
descei à rua, subi vinte degraus
até à sala onde o meu Pai esperava
as grávidas e seus medos velhos:
ah com verdade me dizei, juízes,
se não estamos aí, algures pairando
entre ruídos, entre gente e coisas?



É amigo o sinal, se algum deixámos
para o vosso póstero trabalho.
Sede justos, nada mais pedimos,
sede a balança viva que há no tempo.
Como vós, quizemos a beleza
dentro de cada um.E foi assim
a luta que lutámos: tão suada.


Fernando Assis Pacheco ( Cuidar dos Vivos)

sábado, fevereiro 11, 2006

A mim buscar-me-ás em ti...


(Ingres)


Alma, buscar-te-ás em Mim,
a Mim buscar-me-ás em ti.


De tal sorte pôde amor,
alma, em Mim te retratar,
que nenhum sábio pintor
sab´ria com tal primor
tal imagem estampar.
Foste por amor criada
formosa,bela, e assim
em meu coração pintada;
se te perderes, minha amada,
alma, buscar-te-ás em Mim.
Pois Eu sei que te acharás
em meu peito retratada,
e tão ao vivo tirada
que, se te vês, folgarás
ao ver-te tão bem pintada.
E se acaso não souberes
onde me acharás a Mim,
não vás daqui para ali.
Se não, se achar-me quizeres,
a Mim buscar-me~-ás em ti

Santa Teresa de Ávila (Seta de fogo)

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

A humanidade vai tarde ou cedo aos laços de ternura





Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços de ternura:
Tu és doce atractivo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abismou nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Manuel Maria Barbosa do Bocage

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

O amor é um pequeno animal desprevenido...





Cuidado.O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco.Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.


Casimiro de Brito

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Assim me pacifico...




A segurança destas paralelas
- a beira da varanda e o horizonte;
assim me pacifico, e é por elas
que subo lentamente cada monte.


O tempo arrefecido, e só soprado
por uma brisa tarda que do mar
torna este minuto leve aconchegado,
traz mansas as certezas de se estar.


E vêm novos nomes: são as fadas,
gigantes e anões, que são assim
alegres de o serem - parcos nadas


que enchendo de silêncios este sim
dele fazem brinquedos, madrugadas...
Agora eu estou em ti e tu em mim.

Pedro Tamen

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Sobre a mesa está o teu retrato de criança...




(Wolfratshausen 6 17.7.1897)
Manhã de sábado

Estou só e sobre a mesa diante de mim,
Está, pálido e frágil, o teu retrato de criança;
Reconheço aí o que agora chamo
O sonho, a nosltalgia: o esboço de um sorriso
Sonhador, perdido, e no nicho da órbita,
Sob a fronte, o olho que espreita com doçura
E procura já longe na vida,
E sabe já conceder mil graças!


Gosto muito deste pequeno retrato.Ele exprime-te muito melhor que o último de Elvira; onde não se encontram esta pureza, esta simplicidade dos traços, esta melancólica procura do olhar apaziguado sem cessar pelo sorriso dos lábios que sabem. E no entanto está aí uma das tuas melhores maravilhas: esses olhos que, decifrando qualquer enigma, incidem um instante como a sombra de asas abertas;(...)

Rainer Maria Rilke/Lou Andreas-Salomé ( Correspondência amorosa)

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A criança que pensa em fadas...


( Murillo)

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe,
Sabe como é que as cousas existem, que é que existem,
Sabe que existir existe e não se explica.
Sabe que ser é estar em um ponto.
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro ( Pessoa: 1888-1935)

domingo, fevereiro 05, 2006

UM DOMINGO COM GIORDANO BRUNO




« BENCH'Á TANTI MARTIR...»

Bem que a martírios tu me tens sujeito
devo-te muito e te sou grato,Amor:
com nobre chaga me rasgaste o peito
e o coração me deste a um tal senhor,


de tão excelso e de tão vivo aspeito,
na terra imagem do divino autor,
Pense quem quer que é ímpio o meu destino,
se morro esp'rança e vivo desatino.


Contenta-me alta empresa;
e quando o fim clamado me escapara,
e em tanto arder minh´alma se gastara,


basta que seja nobremente acesa,
e que eu mais alto ascenda
e do número ignóbil me defenda.

Giordano Bruno ( dois poemas de « Dos Furores heróicos»)

sábado, fevereiro 04, 2006

Trate de conservar sempre um pedaço de céu...





- Salve, amigos!- dizia-nos ele vindo ao nosso encontro.- Tendes a felicidade de viver muito tempo aqui; eu amanhã tenho de regressar a Paris, ao meu nicho. Ah-acrescentava com aquele sorriso docemente irónico e desapontado, um pouco distraído, que lhe era próprio-, é certo que na minha casa há todas as coisas inúteis.Só lá falta o necessário, um grande pedaço de céu como aqui. Meu rapazinho, trate de conservar sempre um pedaço de céu por cima da sua vida-acrescentava ainda virando-se para mim-Tem uma linda alma, de uma qualidade rara, uma natureza de artista, não deixe que lhe falte aquilo de que precisa.

Marcel Proust ( Em Busca do Tempo Perdido-Do lado de Swann)

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Rocinante parte a erva do sossego



Sagração


Rocinante
parte a erva do sossego


A Mancha inteira é calma
A chama oculta arde
nesta fremente Espanha interior


De giolhos e olhos visionários
me sagro cavaleiro
andante, amante
de amor cortês a minha dama,
cristal de perfeição entre perfeitas.


Daqui por diante
é girar, girovagar, e combater
o erro, o falso, onda de mil semblantes
e escolher, no peito em sangue,
a grama esquiva e rara
que há-de cingir-me a fronte
por mão de Amor-Amante


A fama, no capim
que rocinante parta,
se guarda para mim, em tudo a sinto,
Sede que bebo, vento que me arrasta.


Glosa de Carlos Drummond de Andrade ( DOM QUIXOTE- Cervantes, Portinari
e Drummond)

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Imóvel, o corpo repousava


Os enigmas


Imóvel, o corpo repousava.
As mãos da mulher desciam
do escuro e do silêncio,
esbarravam nos músculos,
a carne consolava o espírito.
Ela era a primeira e a única
amada, trazia a alegria. Ele
vivera tanto tempo separado
do sonho.Inóspita realidade,
imagens brutais.Agora, de
novo, era-lhe oferecida a casa.
Isto é, o lugar de habitação, a
mesa posta e a janela por onde
entraria a luz da manhã. K. olhava
de lado, estupefacto,como se
tivessem mudado o seu destino.

João Camilo ( A Ambição Sublime)

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A ordem é um fenómeno da escassez...

( Paula Rego)


Desordem e Travessura


Na hora de mais frequência nas ruas, quando a espessa malha da multidão se cruza evitando-se habilidosamente, incansavelmente artista em não chocar os seus guarda-chuvas, os seus carregos de caixas de cartão vazias, podemos meditar na desordem como numa consequência do ritmo de parentesco.Vemos de súbito toda essa gente, vizinha no seu tempo, nos seus desejos, na sua cidade, parecer explodir em direcções diferentes, procurando ignorar-se e precipitando-se nos intervalos livres de um passeio, duma praça. E se aproximássemos a nossa observação até ao nível das suas opiniões notaríamos que elas dependem mais da oposição ao que lhes é idêntico, do que resultam da lógica dos seus interesses. A desordem é a sensibilidade da limitação. Diz Bertolt Brecht que existe ordem onde não há mais nada. « A ordem é um fenómeno de escassez»- acrescenta.
Há a desordem do que não está disposto no seu devido lugar,e há a desordem do que não é simplesmente disponível. O espírito não é disponível.Na medida em que ele se move em torno da sua limitação e simultaneamente em direcção do seu objectivo ele efectua a desordem. Em literatura, a desordem e a travessura aparecem-nos como delicadas convulsões de espírito que é preciso interpretar sem preconceitos alheios à sua própria virtude. Escritores de génio de Kafka ou Henry Miller, pela força a desesperação do mundo vivido, parecem adoptar uma linguagem de desordem; outroscomo Mark Twain ou Bernard Shaw, limitam-se a traduzir os agravos da sensibilidade com o auxílio da simples travessura. A vazão do subconsciente em função do quotidiano, ou a proposta humorística feita à lei humana, são ambas resultado duma inquietação que ultrapassa o vulgar. Os povos onde o humor é uma constante do seu trato são os que mais profundamente provam a sua relutância em aceitar o mundo como um suborno da própria inteligência.(...)
Agustina Bessa Luís ( Desordem e Travessura in Conversações com Dmitri e outras fantasias)